Mecanismos de separação das membranas fetais e principais causas de retenção de placenta em bovinos
Um dos principais problemas que vem sendo estudado há décadas por vários pesquisadores, que acomete vacas de leite no seu puerpério, é a retenção de placenta. Cada caso desta afecção chega a custar, nos Estados Unidos, cerca de R$ 513,00 por vaca afetada.
Em propriedades livres de brucelose, após partos aparentemente normais e onde não se observa nenhuma associação a qualquer fator predisponente conhecido, a incidência pode variar entre 3 e 12%, com uma média de 8% (Arthur, 1979). Isso garante uma constante presença de casos de retenção de placenta dentro das propriedades leiteiras, mesmo quando várias práticas preventivas estão sendo usadas.
Fisiologicamente, a placenta é expulsa, em média, até cerca de 5-8 horas após o parto fetal (Roberts, 1971). Na literatura, são encontrados vários períodos entre permanência das membranas fetais em relação ao parto como diagnostico de retenção de placenta. Roberts, 1971, Grunert, 1980 e Derivaux, 1981 consideram retenção de placenta quando parte ou a totalidade dos anexos fetais permanece no lúmen uterino por um período de tempo superior a 12 horas após o parto.
Vários fatores contribuem para o aparecimento dessa doença em vacas, tornando um pouco difícil o seu controle e até mesmo o seu tratamento.
O conhecimento da fisiologia de separação e expulsão da placenta, dos fatores predisponentes e das conseqüências desta afecção em vacas de leite permite encarar novas possibilidades no domínio da prevenção e terapêutica do processo.
A vaca de leite, por ser um ruminante, possui a placenta zonária cotiledonar, com presença de cotilédones (côncavos, pertencentes aos anexos embrionários) e de carúnculas (convexas, parte do endométrio). A união dos cotilédones e das carúnculas se dá por meio do colágeno e cada junção dessas, distribuídas ao longo de toda área placentária, é denominada placentoma.
Outro aspecto importante a ser mencionado, se refere ao parto da vaca, o qual se resume basicamente em 3 etapas:
• Dilatação cervical (duração 2 a 6 horas)
• Expulsão do feto (duração 30m a 1 hora)
• Expulsão das membranas fetais (duração variada)
O tipo de placenta, o parto e suas etapas servem de auxílio para poder compreender os mecanismos fisiológicos de separação das membranas fetais. Abaixo, estão descritos os mecanismos e, é preciso lembrar que qualquer problema ou interferência no desencadeamento normal de algum destes, é causa de retenção placentária em vacas de leite.
Mecanismos de separação da placenta bovina
O primeiro mecanismo que leva a separação da placenta já se inicia durante os últimos meses de gestação. Envolve fatores relacionados à ação de enzimas, à capacidade de chegada de células inflamatórias nos placentomas e, por fim, à ação de hormônios. Esse conjunto de ações é responsável pela maturação dos placentomas e acontece antes do feto nascer, ou seja, na fase de pré-parto.
Alterações ao nível do epitélio placentário e do tecido conjuntivo de suporte acontecem nessa etapa. As carúnculas, que estão colagenizadas até o momento do parto, sofrem esclerose na periferia das criptas (Grunert, 1984). Além disso, ocorre migração de células inflamatórias, cuja atividade fagocitária se manifesta pelo desenvolvimento de células gigantes polinucleadas na região dos placentomas. Já o estrógeno causa alterações nos placentomas, tais como a infiltração hídrica e intumescência do tecido conjuntivo. Na fase final da maturação dos placentomas, é necessário haver uma secreção acrescida de estradiol 17-e de estrona, durante pelo menos cinco dias. Esse conjunto de reações é necessário para iniciar o processo de separação placentária que finalizará totalmente logo após todos os mecanismos.
A separação mecânica por efeito da pressão uterina é o segundo mecanismo e acontece durante o parto, especialmente na etapa de dilatação da pelve e da cérvix, justamente no momento das contrações uterinas da fase expulsiva. Acontece que alterações constantes na pressão intrauterina provocada pelas contrações causam estados alternados de falta e excesso de sangue nos placentomas, fazendo com que as ligações do epitélio coriônico fiquem perturbadas. As carúnculas, por sua vez, são pressionadas contra o feto durante as contrações uterinas, o que contribui mais ainda com o processo (Grunert, 1984).
O terceiro mecanismo acontece no pós-parto imediato da vaca de leite. É causado devido à ruptura do cordão umbilical e hemorragia funicular, que ocasiona uma anemia das vilosidades. Isso leva a uma falta de pressão sanguínea na circulação placentária, o que auxilia no processo de separação da placenta.
Por último, Segundo Grunert (1984), um processo puramente mecânico de destacamento da placenta fetal que não deve ser subestimado, são as contrações uterinas no pós-parto. Elas invertem o saco placentário, juntamente com a redução do tamanho do útero, que, por sua vez, diminui o volume do talo caruncular e dilata as criptas maternas, completando o destacamento e expulsão das membranas fetais.
Após descrever os mecanismos e reações que levam ao destacamento normal da placenta, é importante relacioná-los com as principais causas de retenção e identificar o que fazer para diminuir esse problema.
Animal com retenção de placenta Fonte:www.mcguido.vet.br/pat__gestação_1.htm
Causas de Retenção de Placenta
1. Alterações ao nível dos placentomas:
As causas de retenção de placenta relacionadas a falhas nos mecanismos de maturação dos placentomas são citadas por vários autores como as mais importante, por serem responsáveis por 2/3 dos casos de retenção placentária em bovinos. Para Grunert (1980, 1984), é a este nível que ocorrem as principais alterações patológicas que originam a falência do mecanismo de destacamento da placenta fetal, situação responsável por 98% dos casos de retenção.
Um dos mecanismos essenciais na maturação dos placentomas é a metabolização do colágeno tipo III por enzimas colagenases. As vacas com retenção de placenta são incapazes de metabolizar o colagénio do tipo III (Sharpe et al., 1990).
Nas vacas com retenção placentária, o número de linfócitos T e B e a atividade quimiotática e fagocítica dos leucócitos estão diminuídos ao nível do placentoma (Gunnink, 1984).
Concentrações de estradiol 17beta na semana que precede ao parto são significativamente inferiores nas vacas com retenção. Os estrogênios atuam ao nível da junção útero-corial, favorecendo o seu relaxamento e esta ação deve ser iniciada antes do parto.
2. Alterações da atividade do miométrio
No trabalho de jubilação do Prof. Arthur (1979), o autor dá uma ênfase especial à inércia do miométrio como causa da retenção placentária.
Outros autores conduzem conclusões quase opostas às enunciadas acima. Concluindo que em 98% das vacas com retenção placentária não existe inércia do miométrio e que, por vezes, as contrações uterinas nestes animais são mais freqüentes e mais fortes (Zerobin e Sporri,1972, Piper et al., 1978, Martin et al., 1981, Grunert, 1980, 1984 e Horta, 1994).
3. Perturbações metabólicas
A síndrome da vaca gorda aparece, por vezes, associada à retenção placentária. Há trabalhos que sugerem que o excesso ou carência de energia durante os 2 últimos meses de gestação podem favorecer uma maior incidência de retenção placentária.
4. Perturbações hormonais
Progesterona, Estrógeno e Cortisol:
A concentração plasmática de progesterona antes do parto pode estar mais elevada nas vacas com retenção. Por outro lado, níveis cronicamente baixos de progesterona desde os 231 dias de gestação, embora suficientes para manter a gestação, comprometem a síntese de estradiol 17beta e aumentam a incidência de retenção placentária. Assim, para haver um descolamento normal da placenta é necessário que o estradiol aumente e a progesterona caia de forma gradual, nas últimas semanas antes do parto.
O stress está diretamente relacionado com a liberação de cortisol. No entanto, em animais submetidos a stress no final de gestação verifica-se um aumento da incidência de retenção placentária acompanhada pelo dobro das concentrações de cortisol no dia do parto. O cortisol é imunossupressor e impede quimiotaxia de células inflamatórias para região dos placentomas.
Prostaglandinas:
A síntese in vitro de PGF em cotilédones de vacas com retenção placentária é inferior quando comparadas a animais sem retenção. Já a produção de PGI2 nos tecidos carunculares é maior em vacas com retenção das membranas fetais. Em Portugal, demonstrou-se pela primeira vez que as prostaglandinas são essenciais ao mecanismo de separação/expulsão da placenta, pois o efeito de antiinflamatórios não esteróides imediatamente após o parto induz a retenção placentária por diminuição da síntese de protaglandinas (Horta, 1994). A ação da prostaglandina PGF2alfa é favorável e a prostaglandina PGE2 é prejudicial à separação da placenta. O efeito favorável da PGF2alfa não se relaciona com aumento das contrações do miométrio. Estes resultados sugerem que a prostaciclina (PGI2), que possui efeito semelhante a PGE2, poderá ter um efeito antagônico ao da PGF2alfa, relativamente ao mecanismo de descolamento da placenta.
Trabalhos realizados mais tarde sugerem que a orientação da síntese das prostaglandinas para a PGE2 a partir da PGF2alfa é modulada pelo declínio no número de células binucleadas na placenta. Vacas com retenção de placenta possuem um grande numero de células binucleadas antes do parto, estas células são especializadas na síntese preferencial de PGE2alfa
Em 1993, Heuwieser et al. utilizando a operação cesariana como modelo de estudo, confirmam que os níveis de PGF2 e de PGFM se encontram significativamente diminuídos na circulação útero-placentária de vacas com retenção de placenta,onde foram encontradas maiores quantidades de PGE2 em vacas sem retenção de placenta.
5. Proteína B específica da gestação (PSPB)
A síntese de PSPB é da responsabilidade das células gigantes binucleadas da placenta. Após o parto, os seus níveis na circulação permanecem elevados durante várias semanas. As vacas com problema de retenção placentária apresentam níveis significativamente inferiores de PSPB a partir da 2ª semana e atingem os valores basais uma semana mais cedo, devido ao aumento da inflamação e das descargas uterinas (descamação) que conduzem a uma depuração mais rápida das células de origem placentária.
Considerações Finais
Os mecanismos que levam à separação das membranas fetais das maternas exigem atenção para o entendimento devido a gama de fatores envolvidos. É de suma importância se atentar para as alterações na maturação dos placentomas, que representam cerca de 60 a 70 % dos casos de retenção.
Não perca, no próximo artigo, os principais fatores predisponentes, as formas de tratamento e as conseqüências relacionadas à retenção de placenta em bovinos.
Placenta bovina Fonte:www.mcguido.vet.br/placentacao.htm
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