Conheça a importância da avaliação andrológica de machos na eficiência reprodutiva do rebanho, lendo o texto "Avaliação de touros no sistema de monta natural"
Artigos Técnicos
Publicado em 24/11/2008 por Joseane Silveira; Graduanda em medicina veterinária, estagiária - Equipe ReHAgro

Avaliação de touros no sistema de monta natural

A fertilidade é inquestionavelmente uma das mais importantes características a ser considerada, tanto nos sistemas produtivos de carne, quanto nos de leite. Economicamente, o mérito reprodutivo é 5 vezes mais importante para o produtor de bezerros do que o desempenho no crescimento e 10 vezes mais importante do que a qualidade do produto. Quando se discute o componente “touro” isoladamente, conclui-se que a importância da fertilidade do macho é muito maior do que a de qualquer fêmea individualmente, já que o touro pode se acasalar com um número muito maior de fêmeas, tanto na monta natural como na inseminação artificial (Barbosa, et al, 2005).

Inúmeras são as vantagens das avaliações andrológicas de touros em propriedades que utilizam o sistema de monta natural, principalmente quando em condições extensivas. Dentre elas, podem ser listadas a oportunidade de classificação e seleção dos touros de maior potencial reprodutivo, bem como a possibilidade de descarte de touros estéreis e subférteis. Tais medidas permitiriam maior intensidade de seleção sobre os reprodutores, o que resultaria em uma mais adequada utilização dos mesmos pela diminuição da relação touro/vaca, com melhorias significativas nos ganhos genéticos e nos índices zootécnicos dos rebanhos (Salvador, 2001).

Dentre os objetivos da indicação do exame andrológico, estão: a seleção e comercialização de reprodutores, a avaliação do potencial reprodutivo pré-estação de monta, o diagnóstico de sub ou infertilidade, o diagnóstico da ocorrência de puberdade, a preservação do sêmen “in vitro”, entre outros.

Touros subférteis ou inférteis comprometem o rebanho ocasionando perdas de produção e, conseqüentemente, prejuízos para o produtor. Para evitar esse tipo de problema, os animais devem ser avaliados anualmente ou antes de entrarem na estação de monta por profissionais capacitados.

Realização do Exame Andrológico

1) Identificação detalhada:

 1.1 Do animal:
Espécie, nome, tatuagem, número de registro, data de nascimento, raça, peso e filiação. Sinais externos que identifiquem o animal também podem ser acrescentados.
 
1.2 Do proprietário e propriedade:
 Nome, telefone, endereço e/ou fax.

2) Exame Clínico:

2.1 Anamnese:
 Deve ser feita de acordo com o objetivo do exame a ser registrado no laudo e inclui toda a história clínica do animal, devendo-se relatar sucintamente, não apenas o motivo da realização do exame, mas também ocorrências relevantes sobre o animal e o rebanho ao qual pertence.
 
2.2 Exame clínico geral:
 Exame semiológico completo do animal. Caso seja detectada alguma alteração, o exame clínico deverá ser aprofundado. Atenção especial deve ser dada à existência de defeitos hereditários.

2.3 Do sistema genital:
 Utiliza-se a inspeção e palpação podendo ser complementado com a ultra-sonografia. Verifica-se a presença, dimensões, consistência, simetria, mobilidade das partes do sistema genital, além da compatibilidade das mesmas com o desenvolvimento corporal e idade do animal. São avaliados o escroto, os testículos, os epidídimos, os cordões espermáticos, o prepúcio, o pênis e a genitália interna.

Dentro do exame do sistema genital, a circunferência escrotal (CE) se destaca. As altas correlações fenotípicas entre CE/idade e CE/peso, 0,68 e 0,75, respectivamente, para animais de dois e três anos de idade, sugerem a CE como adequado parâmetro para identificação dos animais com maiores potenciais de ganho de peso e precocidade, mesmo quando submetidos à restrição alimentar (Salvador, 2001).

Além disso, Quirino, 1999 (citado por Dias, 2004) afirma que a CE é um bom indicador dos aspectos reprodutivos, por apresentar correlações positivas com volume testicular, motilidade, volume e vigor espermáticos e correlações negativas com defeitos maiores, menores e totais, reforçando assim, a importância dessa característica para predição da fertilidade.
 
Toelle e Robison, 1985 (citados por Dias, 2004) relatam que touros com maior CE têm filhas com maior eficiência reprodutiva, em razão de esta característica apresentar correlações genéticas favoráveis com taxa de prenhez e idades à primeira cobrição e ao primeiro parto.

    Aferição da CE, largura e altura dos testículos de um animal da raça nelore

2.4 Do comportamento (sexual e índole):
 O comportamento sexual é avaliado através da verificação da libido e da execução das fases da cópula, quando o reprodutor está diante de uma ou mais fêmeas em cio. A índole é o temperamento do animal na presença de animais da mesma espécie e no seu relacionamento com o homem, pode ser classificado em linfático, dócil ou violento.

3) Espermograma:

    Alguns materiais necessários para a realização do exame

 A realização de um espermograma seguro e confiável exige material de campo e de laboratório especiais. Muitas improvisações vêm sendo feitas e isto sempre acarreta uma quebra da qualidade do ejaculado, levando muitas vezes à condenação injusta de um reprodutor apto, ou, em alguns casos, à liberação de um inapto.

3.1 Método de coleta do ejaculado:

 Cada espécie tem um método de eleição. O método utilizado deve constar no laudo. Para a realização do exame andrológico em bovinos, os seguintes métodos são indicados em ordem de eleição: vagina artificial, eletro-ejaculador e massagem de ampola.

     Coleta de sêmen de animal da raça nelore com o auxílio do eletroejaculador

3.2 Características físicas do ejaculado:

  3.2.1 Volume: é medido em mililitros. O método da vagina artificial apresenta valores mais próximos dos fisiológicos. Não existe um volume mínimo e máximo do ejaculado, variando de acordo com espécie.

  3.2.2 Aspecto: a avaliação é visual e representa principalmente a cor e a aparência, sendo que a cor normalmente visualizada é esbranquiçada, marfim, branca ou amarelada e a aparência é determinada pela concentração espermática, variando de cremosa a aquosa.

  3.2.3 Turbilhão ou movimento de massa: é o movimento em forma de ondas observado em uma gota de sêmen, sendo que a intensidade do movimento é resultante da motilidade, vigor e concentração espermática. A classificação varia de zero (ausência de turbilhão) a cinco (acentuado movimento de massa).

  3.2.4 Motilidade: é expressa em porcentagem e varia conforme a proporção de espermatozóides que apresentem motilidade, representando a porcentagem total de espermatozóides móveis.

  3.2.5 Vigor: é a força do movimento que influencia a velocidade que os espermatozóides se movimentam, sendo classificado de zero (ausência de movimento progressivo dos espermatozóides) a cinco (movimento vigoroso e veloz dos espermatozóides, geralmente progressivo).

  3.2.6 Concentração: é o número de espermatozóides por milímetro cúbico (mm3) ou centímetro cúbico (cm3 = mL).

3.3 Características morfológicas dos espermatozóides:

A avaliação das características morfológicas dos espermatozóides é feita através de esfregaços corados ou preparação úmida. A técnica de preparação úmida é mais indicada que os esfregaços corados por técnicas convencionais. Algumas colorações específicas podem ser utilizadas para se avaliar determinadas partes do espermatozóide, melhorando a acuidade da avaliação. No geral, esses exames especificam os defeitos maiores e menores encontrados ns espermatozóides.

    Da esquerda para a direita: Espermatozóides com caudas dobradas e fortemente enroladas, gota citoplasmática proximal e cauda dupla. Fotos: Jorge Martins e Fernando Souza.

3.4 Outros elementos:

Podem ser ocasionalmente encontrados no sêmen, como: células gigantes, leucócitos, hemáceas e células epiteliais.

4) Exames complementares:
 Nem sempre o exame andrológico se completa nesta etapa, podendo requerer outros e mais sofisticados exames que extrapolam a execução pelo andrologista, mas que devem ser por ele interpretados, juntamente com os demais achados. Os exames complementares não são obrigatórios e podem ser utilizados a critério do técnico responsável, com a finalidade de ressaltar uma característica e/ou qualidade do sêmen.

5) Diagnóstico e/ou conclusão:

 Os reprodutores podem ser classificados em aptos, questionáveis e inaptos à reprodução, sendo que esta classificação não é permanente. Quando da identificação de animais classificados como questionáveis é indicada a reavaliação desses reprodutores em um intervalo de 60 dias para emissão de um resultado conclusivo. Já animais classificados como inaptos em um ou mais exames andrológicos deverão ser afastados.

A qualidade do sêmen é essencial para coadjuvar o diagnóstico e/ou prognóstico de animais com baixo potencial reprodutivo, uma vez que apenas o exame clínico é insuficiente para detectar disfunções de caráter genético-hereditárias.

Referências Bibliográficas:

Manual Para Exame Andrológico e Avaliação de Sêmen Animal; 2ºEdição; CBRA (Colégio Brasileiro de Reprodução Animal);

Testes Preliminares Para o Curso de Andrologia – UFMG; Escola de Veterinária da UFMG; Departamento de Clínica e Cirurgia Veterinárias; Disciplina CCV-015.

FONSECA, V. O., VALE FILHO, V. R. et al; Procedimentos para exame andrológico e avaliação de sêmen animal; Belo Horizonte: CBRA; 1992a.

SALVADOR, D. F; Perfis andrológicos, de comportamento sexual e desempenho reprodutivo de touros nelore desafiados com fêmeas em estro sincronizado; Belo Horizonte: Escola de Veterinária, UFMG, 2001. p.10 (Dissertação de mestrado).

http://www.embrapa.br/imprensa/noticias/2005/setembro/foldernoticia.2005-08-15.6761991895/noticia.2005-09-06.2973191161/?searchterm=androl%C3%B3gico

BARBOSA, R. T., MACHADO, R. et al;  A importância do exame andrológico em bovinos; Circular Técnica 41; São Carlos (SP); Dezembro, 2005.

DIAS, J. C; Aspectos andrológicos, biometria testicular e parâmetros genéticos de características reprodutivas de touros nelore, de dois e três anos de idade, criados extensivamente no Mato Grosso do Sul; Belo Horizonte: Escola de Veterinária, UFMG, 2004. p. 18 e 19 (Dissertação de mestrado).


:: Comentários ::

Nádia Micaela -
Estudante

Muito bom o artigo, fazendo com que aumente os meus conhecimentos.
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Tiatrizi Siqueira Machado - 09/12/2008 11:24
Consultor Técnico

Ficou ótimo o seu artigo. É um assunto interessante e que deveria ser realizado com maior freqüência entre os criadores.
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heitor veloso -
Funcionário de Fazenda

O artigo foi muito interessante, aumentando ainda mais meus conhecimentos.
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Argilano Teixeira de Araujo - 13/05/2009 19:36
Consultor Técnico

Gostaria de parabenizar a autora pela abordagem direta do assunto e dizer que o referido artigo está me servindo como subsídio de uma monografia para conclusão de curso de pós graduação em reprodução da universidade Castelo Branco / Buiatria R.J.
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Homero Rodrigues - 07/05/2010 14:19
Estudante

O artigo é claro e obejetivo.
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