Conheça as necessidades de fornecimento de colostro de acordo com a qualidade e com as diferentes raças, lendo: "Colostro - quanto fornecer aos seus bezerros?"
Artigos Técnicos
Publicado em 09/12/2008 por Bruna Figueiredo Silper – Graduanda em medicina veterinária, estagiária da Equipe ReHAgro e Sandra Gesteira Coelho – Médica veterinária, Doutora em nutrição animal, professora da Escola de veterinária da UFMG.

Colostro: quanto fornecer aos seus bezerros?

O colostro bovino é importante como fonte de nutrientes, hormônios, fatores de crescimento e, principalmente, imunoglobulinas. As imunoglobulinas (anticorpos) são fundamentais para a defesa do bezerro contra bactérias, vírus e outros patógenos, já que a placenta dos bovinos impede a transferência de anticorpos da mãe para o feto durante a gestação.  Esses anticorpos, ou imunoglobulinas, estão presentes em grande quantidade no colostro, que, por isso, deve ser fornecido aos bezerros recém-nascidos. No entanto, para que o colostro forneça ao bezerro a imunidade necessária, três principais fatores devem ser considerados:

- Tempo de fornecimento após o nascimento – Este é, provavelmente, o fator mais importante na determinação da absorção de imunoglobulinas. As imunoglobulinas ingeridas no colostro devem atravessar a parede do intestino do bezerro, e essa absorção é máxima em até 6 horas pós-parto. Após 6 horas de vida, a capacidade do intestino em absorver imunoglobulinas decresce, cessando quando o bezerro tem 24 horas de vida. Além disso, se o intestino é permeável aos anticorpos, também é permeável a bactérias, vírus e demais causadores de doenças, com os quais o bezerro está em contato desde o nascimento.  Por isso, o colostro deve ser fornecido o mais rápido possível após o parto, não ultrapassando 6 horas de vida do bezerro. 

- Quantidade de imunoglobulinas no colostro – Depende de diversos fatores, como idade da vaca, estação de parição, raça e volume de colostro produzido. Animais mais velhos tendem a produzir colostro de melhor qualidade, provavelmente devido ao maior tempo de exposição a vacinações e ao contato com agentes patogênicos. O efeito da estação do ano está relacionado à temperatura ambiente. Vacas em estresse térmico consomem menos alimento e, conseqüentemente, têm menor aporte de nutrientes para síntese de colostro.
Alguns pesquisadores relataram tendência de vacas que produzem grande volume de colostro apresentar qualidade baixa ou intermediária, mas trabalhos mais recentes não relatam relação entre volume produzido e qualidade. Há variações também na qualidade do colostro para as diferentes raças. Na tabela abaixo, apresentam-se os valores encontrados por alguns autores para as principais raças criadas para produção de leite.

*Ig/ml (imunoglobulinas/mililitro) - concentração de imunoglobulinas avaliada com colostrômetro ou por imunodifusão radial.

- Volume de colostro ingerido – A quantidade de colostro a ser fornecida aos bezerros depende da qualidade do mesmo. Segundo alguns autores, os bezerros precisam ingerir no primeiro fornecimento de colostro no mínimo 150 gramas de IgG, que é a imunoglobulina encontrada em maior proporção no colostro. Esse valor foi calculado de acordo com a concentração plasmática de IgG desejada com 24 horas de vida, que deve ser maior ou igual a 15mg/ml. Conhecendo-se o peso do bezerro e a qualidade do colostro, é possível calcular o volume a ser fornecido para atingir a concentração plasmática de IgG desejada. Abaixo, há cálculos do volume necessário para diferentes raças de bovinos de acordo com a média de peso e qualidade do colostro encontrado na literatura.


Com os valores calculados, percebe-se que pequenos volumes de colostro podem conferir boa transferência de imunidade passiva aos bezerros. No entanto, deve-se observar que com exceção da raça Pardo-Suíço, todas as raças apresentaram colostro com maior concentração (acima de 51 mg/ml de IgG) e que estes cálculos foram feitos considerando-se boa absorção, equivalente àquela das primeiras seis horas de vida. Em muitas fazendas não há como avaliar a qualidade do colostro, e, nestes casos, volumes maiores devem ser fornecidos com o intuito de garantir aporte suficiente de imunoglobulinas e dos demais nutrientes do colostro aos bezerros. Alguns autores recomendam fornecer 4 (ou 3,78) litros de colostro imediatamente após o nascimento e mais 2 (ou 1,89) litros 12 horas depois, quando a qualidade do colostro não é conhecida, para que se garanta a ingestão de massa mínima de anticorpos necessária à transferência de imunidade passiva eficiente. É preciso lembrar que o colostro deve ser fornecido nas primeiras 6 horas de vida do bezerro, pois após esse tempo não há absorção com alta eficiência, além de o atraso permitir a chegada de patógenos ao intestino antes do colostro.


Como manter um banco de colostro de alta qualidade na fazenda?

O melhor modo de possuir sempre colostro de boa qualidade disponível é por meio de um banco de colostro. Neste banco, mantém-se congelado colostro já avaliado para qualidade, em unidades com o volume a ser fornecido por bezerro na propriedade. 

A avaliação da qualidade é feita com um colostrômetro, que mede a densidade do colostro e a relaciona com a concentração de imunoglobulinas G (IgG). A qualidade é avaliada em três categorias: vermelha, que é o colostro ruim com até 20 mg/ml de IgG; amarelo, colostro intermediário, que varia de 21 a 50 mg/ml e verde, que é o colostro  de alta qualidade, com mais de 51 mg/ml de IgG. Toda vaca recém-parida deve ser ordenhada o mais rápido possível, para que não haja redução do conteúdo de anticorpos por diluição, e esse colostro deve ser avaliado com o colostrômetro. Colostros de qualidade média e alta devem ser armazenados, devidamente identificados. O colostro de diferentes vacas nunca deve ser misturado. Todos os recipientes utilizados no manuseio do colostro devem estar limpos e serem bem higienizados para evitar contaminação, já que este alimento é a primeira fonte de imunidade do bezerro. Podem-se utilizar sacos plásticos descartáveis no armazenamento.

A qualidade do colostro pode ser medida também com um lactodensímetro, que mede a densidade do leite. Neste caso, são utilizados os seguintes parâmetros: até 1,034, colostro ruim; de 1,035 a 1,046, colostro intermediário e acima de 1,047, colostro de alta qualidade.

                        Colostrômetro                                     Lactodensímetro

O colostro deve ser, então, mantido em congelador até o período de utilização. Não deve ser armazenado em freezer tipo frost free, porque este tipo de equipamento sofre ciclos de descongelamento. A validade é de aproximadamente um ano, e deve ser utilizado  sempre o colostro mais antigo, para que não fique velho. Para descongelar aqueça o colostro em banho-maria, dentro do saco plástico resistente, em água a 45 - 50oC. Somente o colostro que irá ser utilizado deve ser descongelado. Nesse processo não há perda de nutrientes ou anticorpos, apenas de algumas células de defesa. O colostro pode ser fornecido com mamadeira ou sonda esofágica. O uso de sonda deve ser feito apenas por pessoas treinadas.

O fornecimento do colostro de um banco tem diversas vantagens, como a garantia da qualidade e do volume ingerido, além de haver sempre alimento disponível para adequada colostragem das bezerras. Utilizando colostro de boa qualidade, rapidamente após o nascimento, em volume adequado e coletado com higiene, a possibilidade de sucesso na transferência de imunidade passiva é muito grande.

Referências bibliográficas

 COELHO, S. G., CARVALHO, A. U. Criação de animais jovens. In: Do campus para o campo: tecnologias para a produção de leite. Fortaleza Expressão Gráfica Editora. 2006, 320 p. 
DAVIS, C. L. & DRACLEY, J. K. 2 edição. The development, nutrition, and management of the young calf. Iowa, 1998, 339 p.
 FLEENOR, W. A.; STOTT, G. H. Hydrometer Test for Estimation of Immunoglobulin Concentration in Bovine Colostrum. J. Dairy Sci,. v.63, p.973-977, 1980
GODDEN, S. Colostrum management for dairy calves. Veterinary Clinics Food Animal Practice, v,24, p19:39. 2008
MORIN, D. E., CONSTABLE, P. D., MAUNSELL, F. P. AND MCCOY, G. C. Factors Associated with Colostral Specific Gravity in Dairy Cows.  J. Dairy Sci, v 84, 937–943, 2001.
PRITCHETT, L. C.; Gay, C. C.; Besser, T. E.; Hancock, D. D. Management and production factors influencing immunoglobulin G1 concentration in colostrum form Holstein cows. J. Dairy Sci, v.74, p.2336-2341, 1991.
QUIGLEY, J. D., MARTIN K. R., and DOWLEN H. H. Concentrations of Trypsin Inhibitor and Immunoglobulins in Colostrum of Jersey Cows.  J. Dairy Sci, v.78, p.1573-1577, 1995

SILPER, B. F. et al. Avaliação da qualidade do colostro de vacas mestiças de quatro grupos genéticos Holandês Zebu. 45ª Reunião Anual da sociedade Brasileira de Zootecnia, 2008



:: Comentários ::

fazenda j.campos - 30/07/2009 13:59
Consultor Técnico

quero comprar o colostrometro,onde posso faze.lo
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Equipe ReHAgro - 06/08/2009 15:32
Consultor Técnico

Caro "fazenda j.campos" o colostrômetro pode ser encontrado em empresas que vendem produtos e equipamentos veterinários e custa em média R$250,00. O Lactodensímetro, que é um equipamento de latícinio e tem um preço mais acessível,quando calibrado para colostro também pode ser usado.
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Antônio Flávio - 10/02/2010 22:06
Produtor - Gado de Leite

Gostaria de saber onde posso comprar um colostrômetro? Obrigado.
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Henrique Lentulo Araújo -
Estudante

Meu trabalho de conclusão de curso (TCC) é referente a colostro de suínos, e gostaria de saber se as concentrações para suínos de ruim, boa qualidade, intermediária eu posso utilizar, são as mesmas densidades? E se eu posso utilizar o colostrometro de bovinos em suínos? Grato pela atenção.
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