Planeje! Leia no texto "Influência da Época de Plantio e Colheita na Qualidade da Silagem de Milho" e saiba a importância de se programar para não perder tempo e ter um alimento de boa qualidade.
Artigos Técnicos
Publicado em 15/12/2008 por Alexandre Fonseca Ribeiro; Engenheiro agrônomo - Equipe ReHAgro

Influência da Época de Plantio e Colheita na Qualidade da Silagem de Milho

A alimentação é responsável pela maior parcela nas planilhas de custo de produção em propriedades leiteiras, sendo o concentrado responsável por mais de 80% do custo alimentar. A melhoria na qualidade da forragem é a maneira mais eficaz de reduzir a quantidade dos alimentos concentrados sem reduzir a produção, conseqüentemente afetando o custo por litro de leite produzido.

A constância na obtenção de forragem em quantidade e com qualidade durante todo o ano sempre foi um desafio enfrentado pelos produtores, sendo a silagem uma forma de alcançar este objetivo. Das espécies forrageiras mais utilizadas na produção de silagens, tem sido recomendado, em primeiro lugar , o milho, em função da possibilidade de obtenção de alta produção de matéria seca por unidade de área, alto conteúdo energético determinado pelo baixo teor de fibra e pelo alto teor de amido na planta, período curto do plantio à colheita, janela de plantio relativamente longa, possibilidade de colheita para grão ou silagem, colheita sem perda significativa de folhas, bom padrão de fermentação no silo, fácil mecanização da colheita e da alimentação do rebanho (Nussio, 1991; Gomes, 2003; Nussio, 2001).
Dentre as práticas de manejo para obtenção de uma silagem com boas características nutricionais e em quantidade satisfatória, a época de semeadura e colheita tem participação relevante. O atraso, tanto na semeadura (a partir de Dezembro), quanto na colheita, resultam em menor produtividade e queda na qualidade da silagem. Segundo Villela (2001), a época ideal para semeadura no sul/sudoeste de Minas Gerais é de 15 de outubro a 15 de novembro, que observou redução média de 39 kg de grãos/ha a cada dia de atraso depois da época ideal, e queda na digestibilidade da matéria seca quando ocorreram atrasos tanto na semeadura quanto no corte. Já época de colheita poderá variar em torno de 102 a 119 dias após o plantio, em função do híbrido utilizado e/ou fatores ambientais, já que a determinação do ponto de corte para silagem se dá em função do teor de matéria seca (MS) acumulada na planta.

Implantação da lavoura

O atraso na época de semeadura e colheita pode ocorrer em função de adversidades climáticas e/ou imprevistos que independem do produtor, mas muitas vezes esse atraso se dá por negligência e falta de planejamento. Propriedades que não dispõe de sistema de irrigação ficam dependentes do início das chuvas para iniciarem o plantio. No caso do milho recomenda-se que se tenha acumulado em torno de 100 mm de água no solo e que haja previsão de chuvas nos dias subseqüentes ao plantio, por isso é muito importante que a fazenda possua algum equipamento de monitoramento de chuvas e faça o acompanhamento periódico das previsões do tempo em sites especializados para maior segurança na tomada de decisão.
Do ponto de vista operacional, produtores e técnicos devem lançar mão de diversas medidas de planejamento, a fim de evitar atrasos na implantação da lavoura. Os implementos utilizados deverão estar em boas condições de operação, sendo necessária uma vistoria criteriosa de todo o maquinário antes da época de plantio, havendo tempo hábil para possíveis reparos. A realização da regulagem, com antecedência, de semeadoras e outros implementos necessários no plantio e pré-plantio também são formas de se ganhar tempo, aproveitando a época em que houver condições adequadas de plantio. Realizar a regulagem com antecedência, além de evitar atrasos, possibilita também enxergar falhas que tenham passado despercebidas durante a vistoria de manutenção.
 
Durante a época de plantio, são comuns dias sucessivos em que o plantio deve ser interrompido devido às precipitações ocorrentes. Após o início do plantio deve-se aproveitar ao máximo os dias possíveis de transitar e operar nas glebas, indo além do turno normal de serviço ou até mesmo utilizando turno extra de trabalho, fazendo o plantio no período da noite, quando o maquinário possibilitar este tipo de operação.

Ponto de Colheita

Como dito anteriormente, o ponto de colheita é em função do teor de MS da planta, sendo considerado ideal quando as plantas apresentam teor médio de matéria seca (MS) entre 30 a 35%, pois nesse ponto a planta apresenta melhor relação entre alto rendimento de matéria seca, alto teor de amido e baixo teor de fibra, o que confere melhor perfil de fermentação na massa ensilada e maior consumo voluntário pelos animais.

Quando o milho é ensilado acima de 37% de matéria seca (MS) há maiores perdas de na colheita, além de acarretar em má compactação e eliminação do ar da massa ensilada, conferindo uma silagem de pior qualidade. O acúmulo de MS é inversamente correlacionado com a degrabilidade da planta e do grão de milho, devido à lignificação da parede celular que, conseqüentemente, aumenta o teor de fibra em detergente neutro (FDN) da planta, e ao aumento da vitreosidade dos grãos, elevando as perdas de nutrientes nas fezes dos animais. O teor de FDN determina a quantidade de fibra da planta, que corresponde às frações de celulose, hemicelulose e lignina (Mendes, 2006), sendo que o aumento dessas frações é responsável pelo menor aproveitamento do alimento ingerido. Já a vitreosidade é a relação entre endosperma vítreo e farináceo do grão, que correspondem à parte dura e macia do grão, respectivamente, sendo a parte vítrea menos degradável. 

Por outro lado, quando o material é ensilado abaixo de 30% de matéria seca, o conhecido ponto de pamonha, ainda há muita umidade no material, acarretando em menor produção de matéria seca por área, baixo nível energético devido ao baixo teor de amido nos grãos, pior perfil de fermentação no silo, formação de compostos indesejáveis que alteram de forma negativa a palatabilidade e a qualidade nutricional do alimento, aumento de perdas de nutrientes por efluentes e aumento do custo de transporte e colheita em relação a MS produzida. É comum produtores e técnicos avaliarem a produtividade de uma lavoura com base na produção de matéria verde. Lavouras colhidas com alto teor de umidade dão uma falsa impressão de produtividade, sendo que na verdade mais de 70% do material colhido será água.

Realizar a colheita quando as plantas apresentam entre 33 e 35% de MS é aconselhado quando o produtor dispõe de maquinários com boa eficiência de corte, com alto rendimento de colheita e quando se trabalha com híbridos com maior degrabilidade dos grãos e que apresentam maior janela de corte. Do contrário recomenda-se realizar a colheita quando as plantas apresentarem entre 30 e 33% de MS. A janela de colheita pode variar de 5 a 12 dias entre híbridos e de acordo com as condições climáticas. Normalmente, híbridos com grãos de textura dura (milho Flint) apresentam menor janela de colheita em relação a híbridos dentados e semi-dentados. Ambientes com baixa umidade relativa e com alta temperatura também tendem a acelerar o aumento no percentual de MS da planta, podendo variar entre 0,5 a 0,8 % de MS/dia.


* Porcentagem do Peso Vivo. Fonte: Huber et al.(1965); citado por Guia de Campo Sementes Agroceres.

¹ Proteína Bruta. ² Fibra em Detergente Neutro . ³ Fibra em Detergente Ácido. 4Digestibilidade. 5 Ponto ideal de colheita
Fonte: Adaptado de Huber et alii (s/d) e Wiersan e Carter (1993); citado por Guia de Campo Sementes Agroceres

Determinação do ponto de colheita

É possível correlacionar o teor de matéria seca da planta com a taxa de deposição de amido no grão, conhecida como linha do leite (Figura 1 e 2). Normalmente, a planta apresenta teor de MS entre 33 a 35% quando os grãos se encontram no estádio de metade da linha do leite (Tabela 2). A linha do leite é um bom parâmetro para acompanhamento da maturidade da lavoura, mas não deve ser adotado de forma isolada na tomada de decisão, pois a relação entre ponto da linha do leite e matéria seca da planta pode variar entre híbridos e fatores ambientais. Devido a essa variação é necessário o monitoramento do teor de matéria seca de toda a planta, para que haja maior acerto na hora de se determinar o início da colheita. Um procedimento prático de se determinar o teor de MS da planta, podendo ser feito na propriedade, é a técnica do aparelho de microondas (Tabela 3). Não basta somente acertar o momento de iniciar a colheita, é preciso fazer um bom planejamento considerando o tamanho da área a ser colhida, a janela de corte do híbrido utilizado, o rendimento de colheita dos maquinários e escalonamento do plantio quando necessário, para que as plantas sejam colhidas com teor médio de matéria seca mais próximo possível do desejado. Ao calcular o rendimento de colheita com base na capacidade diária de produção dos implementos utilizados e o tamanho de cada gleba, recomenda-se adotar uma margem de segurança de 40%, devido a atrasos que normalmente ocorrem na época de ensilagem. Os mesmos cuidados mencionados à época de plantio, no que diz respeito ao aproveitamento dos dias possíveis de se trabalhar, devem ser adotados em relação à época de colheita.

Tabela 3 - Passos para determinação do teor de matéria seca (%MS) em aparelhos de microondas



    Figura 1 – Diferentes estádios da linha do leite (LL) em grãos de milho.

Figura 6 – Ilustração da linha do leite em grãos de milho (Grão farináceo). Fonte: Sementes Agroceres.

Conclusão

Vale ressaltar que o processo de produção de silagem compreende várias etapas, as quais se complementam ao longo do processo. Dentre estas etapas pode-se citar: escolha do híbrido aliado a um estande adequado; espaçamento utilizado; correta recomendação de correção e adubação do solo; controle eficiente de pragas, doenças e plantas daninhas; práticas conservacionistas de manejo do solo; monitoramento da colheita; tamanho das partículas; compactação, vedação, forma, velocidade e eficiência de enchimento do silo; altura de corte das plantas e uso de aditivos. A negligência em qualquer dessas etapas afetará negativamente a qualidade final da silagem, por isso produtores devem sempre se manter informados a respeito de novas tecnologias e buscar orientação técnica para o acompanhamento da atividade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GOMES, M. de S. Valor genético de linhagens de milho na produção e digestibilidade da silagem. 2003. 135p. Tese (Doutorado em Genética e Melhoramento de Plantas) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG.

MENDES, M. C. Avaliação de híbridos de milho obtidos pór meio de cruzamento entre linhagens com diferentes degradabilidades da matéria seca. 2006. 57p. Dissertação(Mestrado) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG.

NUSSIO, L. G. Cultura de milho para a produção de silagem de alto valor alimentício. Anais do Simpósio sobre Nutrição de Bovinos. Piracicaba FEAL USP, 1991. P. 59-168.

NUSSIO, L. G. SIMAS, J. M. LIMA, M.LM. Determinação do ponto de maturidade ideal para a colheita do milho para silagem. In Workshop sobre milho para silagem, 2. Piracicaba, 2000. Anais. Piracicaba FEALQ, 2001. P. 11-26.

VILLELA, T. E. A. Época de semeadura e de corte de plantas de milho para silagem. 2001. 80p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG.


:: Comentários ::

alberto amaral gontijo -
Estudante

Muito interesante esse artigo, porque muitos produtores não se preocupam com esses detalhes que influenciam no valor nutricional da silagem.
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Milton Lima - 21/12/2008 14:35
Professor

Simples, objetivo e direto. Muito bom artigo. Parabéns pela pertinência.
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Breno Henrique Araújo - 26/12/2008 07:56
Estudante

Parabéns Alexandre, o artigo ficou muito bom, fácil de entender e muito bem escrito!
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Dirceu Bruno - 26/12/2008 21:26
Consultor Técnico

Ótimo texto,pois é mais um esclarecimento aos produtores no sentido de mostrar que é necessário profissionalismo em todas as etapas do sistema de produção.
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