FERRAMENTAS PRÁTICAS PARA INVESTIGAR E CONTROLAR PROBLEMAS DE QUALIDADE DE LEITE

Para que o produtor obtenha lucro na atividade leiteira é preciso ter aumento nos preços pagos pelo produto e/ou redução nos custos de produção. Ambos os fatores podem ser favoravelmente influenciados pela melhoria da qualidade do leite e pelo controle da mastite. Com a crescente concorrência e com as margens de lucro decrescentes, tanto em nível nacional quanto internacional, é muito importante que os produtores busquem qualidade e eficiência de produção, aumentando os seus lucros e melhorando as chances de sobrevivência em um mercado cada vez mais competitivo (PHILPOT et al, 2002).
A qualidade do leite é uma medida importante que está associada às diversas práticas de manejo realizadas na fazenda (RUEGG et al, 2008).
Os produtores estão sendo cada vez mais exigidos quanto à qualidade do seu produto, já que o pagamento, na maioria das vezes considera este parâmetro. A contagem bacteriana total (CBT) pode dar uma diferença de até R$ 0,08 por litro de leite, podendo descontar até R$ 0,04 se o leite for de baixa qualidade ou acrescentar este mesmo valor se a CBT for baixa, ou seja, se o produtor estiver produzindo leite de boa qualidade. Quanto à contagem de células somáticas, o desconto ou o acréscimo no pagamento por litro de leite pode ser de R$ 0,03, tendo uma diferença no preço total de R$ 0,06 por litro.
A mastite é a doença de maior custo do gado leiteiro. As perdas relativas a ela são duas vezes mais elevadas do que as relativas à infertilidade e às doenças reprodutivas. Além disso, do ponto de vista de produtividade, do risco de doenças, do comércio internacional e do bem-estar, esta doença está no topo da lista (PHILPOT et al, 2002).
Cada quarto infectado com um grande patógeno da mastite produz aproximadamente 727 kg a menos de leite por lactação do que os quartos não infectados (PHILPOT et al, 2002).
PERDAS ECONÔMICAS CAUSADAS PELA MASTITE
A mastite é uma inflamação da glândula mamária e ocorre quando bactérias (como Streptococcus agalactiae, Staphylococcus aureus, Staphylococcus spp. coagulase negativo ou Streptococcus spp. ambiental) conseguem atravessar o canal do teto, invadir o úbere e causar uma infecção (RUEGG, 2007).
Os microrganismos podem penetrar no teto devido:
• Higiene inadequada do ambiente e durante a ordenha;
• Falhas nos procedimentos da ordenha;
• Falta de um programa de controle de mastite;
• Mau funcionamento do equipamento de ordenha;
• Penetração de bactérias através do canal do teto entre as ordenhas e multiplicação dentro da glândula mamária;
• Penetração durante o movimento físico resultante da pressão exercida na extremidade do teto à medida que a vaca se movimenta;
• Por meio dos impactos provocados pelas flutuações de vácuo contra o orifício do teto durante a ordenha;
• Tratamento inadequado;
• No momento da inserção de uma cânula de antibiótico.
Fonte: PHILPOT et al, 2002.
As perdas econômicas provocadas pela mastite são altas. A redução na produção de leite representa 66% da perda anual total causada por esta doença.
Fonte: PHILPOT, 2002.
A presença de mastite proporciona o aumento das qualidades indesejáveis do leite, tais como enzimas proteolíticas, sais e rancidez, ao mesmo tempo em que diminui as qualidades desejáveis como proteínas, gordura e lactose, assim como a aptidão para a fabricação de queijo e a estabilidade térmica (PHILPOT et al, 2002).
TABELA 2: Efeitos da Mastite na Composição do Leite
Fonte: PHILPOT et al, 2002.
QUALIDADE MICROBIANA E CONTAGEM DE CÉLULAS SOMÁTICAS
Contagens bacterianas e de células somáticas são métodos de referência e comumente são utilizados na avaliação da qualidade do leite cru (RUEGG et al, 2008).
A qualidade microbiana é medida por meio de contagens padrão em placa que é um método de investigação de problemas de qualidade do leite (RUEGG et al, 2008).
Apesar das bactérias encontradas no leite cru serem destruídas pela pasteurização, a monitoração da CBT é muito importante para garantir a qualidade do produto oferecido ao consumidor e para consolidar a confiança deste. O leite sem resíduos de antibióticos e com baixas contagens bacterianas e de células somáticas garantem produtos de melhor qualidade e com prazo de validade maior (RUEGG et al, 2008).
As vacas com baixa contagem de células somáticas têm uma vida produtiva mais longa. O leite com CCS elevada contém menos componentes desejáveis, como açúcar, proteína e gordura, e mais componentes indesejáveis como enzimas que atacam seus componentes. Quando um leite com elevada CCS é usado para a fabricação de queijo, o rendimento é menor e a qualidade do produto final é inferior, podendo causar alterações em seu sabor e textura (PHILPOT et al, 2002).
Práticas de ordenha como o uso de desacopladores manuais, a defecação na sala de ordenha e as falhas em empregar uma rotina completa de ordenha, estão associadas ao aumento das contagens bacterianas (RUEGG et al, 2008).
A contagem padrão em placas (CPP) ou contagem total de bactérias (CBT) indica as condições higiênicas da fazenda, o estado de saúde do rebanho, a limpeza do equipamento de ordenha e a temperatura de estocagem do leite. (RUEGG et al, 2008).
A CBT é um ponto crítico no controle da mastite. Produtores mais rigorosos estabelecem metas menores que 5.000 UFC/ml. Já uma contagem maior que 10.000 UFC/ml é um indicativo de problemas com a qualidade do leite. A CBT alta é geralmente causada por erros no resfriamento do leite ou no equipamento de ordenha. Não é comum a mastite contribuir para a CBT, mas vacas acometidas por mastite podem, ocasionalmente, liberar grandes quantidades de microrganismos no leite. Geralmente, isso está associado a infecções subclínicas causadas por estreptococos, principalmente o S. agalactiae (RUEGG et al, 2008).
As fontes de coliformes no leite do tanque são os úberes das vacas ou a falta de higiene durante os procedimentos da ordenha. A contagem de coliformes é um indicativo da eficiência dos procedimentos de preparação da vaca durante a ordenha e da limpeza do ambiente da vaca. Eles também podem permanecer nas películas residuais do equipamento de ordenha (RUEGG et al, 2008).
A influência da mastite sobre a contagem total de bactérias no leite depende principalmente do tipo do patógeno e do estágio da infecção (RUEGG et al, 2008).
Tendo, a mastite várias causas torna-se um grande desafio identificá-las e,consequentemente, desenvolver e implementar programas de controle.
IDENTIFICAÇÃO DE PROBLEMAS DE QUALIDADE DE LEITE
• Quando a CCS está alta e há baixa prevalência de mastite clínica, o problema do rebanho é com a mastite subclínica causada por microrganismos contagiosos.
• Se a CCS está baixa, porém os casos de mastite clínica são elevados, significa que os microrganismos presentes são causadores de mastite ambiental.
• Se a CBT estiver maior que 10.000 UFC/ml e o número de estreptococos for maior que 75% do total, significa que os úberes estão infectados. É comum encontrar as vacas com Streptococcus agalactiae e S. uberis eliminando milhões de bactérias/mililitro de leite.
• Se a contagem de estreptococos for menor que 25% do total, a causa provavelmente não são as vacas infectadas, mas a limpeza inadequada do equipamento de ordenha, tetos que não estão sendo limpos e secos ou resfriamento inadequado do leite.
• Números elevados de estreptococos, estafilococos (5.000 a 15.000/ml), coliformes e bactérias formadoras de esporos indicam um duplo problema: vacas infectadas e limpeza inadequada dos úberes e dos equipamentos de ordenha.
• Amostras com contagem de estafilococos maior que 15.000/ml, geralmente é indicador de resfriamento inadequado do leite. Esta contagem alta de estafilococos não é comum ocorrer e dificilmente acontece devido ao úbere infectado.
• A contagem elevada de coliformes pode significar que:
- As teteiras estão danificadas;
- Baixa temperatura da água quando o sistema de ordenha está sendo higienizado;
- Pedras de leite nas superfícies que entram em contato com o leite;
- Falhas na utilização de produtos químicos usados para limpar ou desinfetar o equipamento de ordenha.
• Elevado número de coliformes, estafilococos e estreptococos ambientais são devido ao resfriamento inadequado do leite.
• Os filtros de leite também devem ser avaliados para:
- Verificar se o leite das vacas com mastite clínica está sendo detectado e segregado do tanque de resfriamento;
- Se os tetos estão sendo limpos antes da colocação das teteiras.
Após o início da ordenha, colete uma amostra do primeiro leite que flui através da linha de entrada do tanque de resfriamento. Em seguida, uma amostra desse mesmo leite deve ser coletada após a sua entrada no tanque. Amostras semelhantes devem ser coletadas durante toda a ordenha (PHILPOT et al, 2002).
- Quando a contagem bacteriana da primeira amostra estiver alta, a fonte de contaminação é o equipamento de ordenha inadequadamente limpo.
- Se a contagem bacteriana da primeira amostra for baixa e a contagem da segunda estiver alta, o tanque de resfriamento do leite é a fonte de contaminação.
- Quando as amostras iniciais apresentarem uma contagem bacteriana alta, significa que as vacas estão eliminando grande quantidade de Streptococcus agalactiae ou S. uberis, ou que o volume de leite tenha atingido determinada altura no tanque, em que a superfície que está em contato com o mesmo não está adequadamente limpa.
- Se a contagem bacteriana aumenta vagarosamente durante a ordenha, provavelmente o leite está incubando em algum ponto do sistema de ordenha ou este sistema não está funcionando adequadamente. A incubação do leite nos sistemas canalizados é considerada um problema dos grandes rebanhos em que são necessárias várias horas para ordenhar todos os animais. Isso também pode ocorrer nas instalações em que a linha do leite não é suficientemente inclinada.
• Existem estudos demonstrando que a CCS geralmente varia de 900.000 a 2.238.000/ml em quartos infectados por Streptococcus agalactiae e de 1.500.000 a 1.820.000 CS/ml em quartos infectados por Staphylococcus aureus. Porém, existem dados com valores menores:
- Quando a CCS está entre 400.000 e 600.000/ml e ocorrem oscilações nesses valores, provavelmente, as vacas estão contaminadas com Staphylococcus aureus.
- Quando existem 800.000 a 1.000.000 de células somáticas/ml e não há oscilação, significa que o rebanho está contaminado com Streptococcus agalactiae.
- E se a CCS estiver também entre 800.000 e 1.000.000/ml e não oscilar, o problema da fazenda é ambiental.
Ou seja, esses valores variam muito, podendo encontrar valores mais baixos ou até mais altos em relação ao que foi citado acima, já que a CCS depende da época do ano (no verão os valores são mais elevados), da idade da vaca, entre outros.
Identificar as causas dos problemas de qualidade de leite está sendo um grande desafio para os produtores, veterinários e especialistas em qualidade de leite. Ser um bom investigador e conhecer as características do problema é fundamental para identificar a fonte. Coletar o máximo de informações e, consequentemente, desenvolver e implementar medidas corretivas e assegurar que os problemas de manejo corretos sejam colocados em prática, evita que o problema se desenvolva novamente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PHILPOT, W. Nelson; NICKERSON, Stephen C. Vencendo a luta contra a mastite. Westfalia, 2002. Capítulo 24.
RUEGG, Pamela L. Uso prático da contagem de células somáticas na fazenda. Star Milk, 2007.
RUEGG, Pamela L.; REINEMANN, Doug; HOHMANN, Kathryn. Impacto do manejo de ordenha na qualidade microbiana do leite. Novos Enfoques, 2008.