Leia o artigo "Milho Bt - Desafios e perspectivas", confira a avaliação realizada em três fazendas e veja os resultados no combate às pragas mais comuns da cultura.
Artigos Técnicos
Publicado em 02/03/2009 por Rosangela C.Marucci, engenheira agrônoma, doutora em entomologia; Silvino G. Moreira, engenheiro agrônomo, doutor em solos e nutrição de plantas; José M. Waquil e Simone M. Mendes, pesquisadores da Embrapa Milho e Sorgo.

Milho-Bt: Desafios e perspectivas

A utilização de híbridos de milho-Bt na safra 2008/2009 pode ser considerada um marco na produção de milho no país, por otimizar a logística das operações agrícolas, gerando economia e praticidade ao produtor. Em países onde essa tecnologia está disponível, inúmeros benefícios estão relacionados, como: a redução do uso de inseticidas e de combustível para o controle de pragas; redução das perdas causadas por pragas e dos níveis de grãos ardidos provocados pela abertura nas espigas devido ao ataque da lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda) e lagarta-da-espiga (Helicoverpa zea), preservação de inimigos naturais, redução dos riscos de intoxicação.

No entanto, para compreender o que é o milho-Bt e qual a ação esperada no controle das lagartas é preciso, primeiramente, entender o modo de ação da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt) sobre os insetos.

Como funcionam as toxinas do Bt 

As toxinas Bt são sintetizadas como protoxinas, que não possuem atividade tóxica. A toxina só se torna ativa quando ingerida pelo inseto, porque, devido às condições alcalinas (pH acima de 8) do tubo digestivo, ocorre a quebra da proteína, liberando o núcleo ativo. Este deve se ligar a receptores específicos na parede intestinal do inseto, desencadeando o processo que se inicia pela inibição da ingestão e absorção dos alimentos, provocando, com a evolução dos sintomas, a ruptura das células da parede do tubo digestivo, provocando a morte das lagartas. É importante ressaltar que essa toxina é inócua a humanos e vertebrados, que possuem o pH intestinal ácido, onde a proteína é rapidamente degradada.

Com o avanço da biotecnologia, o gene bt, que determina a expressão da toxina de B. thuringiensis, foi clonado e introduzido em plantas de milho, dando origem ao milho-Bt, conferindo resistência às espécies de lepidópteros-praga na cultura do milho, principalmente, lagarta-do-cartucho (Figura 1 A), lagarta-da-espiga (Figura 1B) e broca-da-cana (Diatraea saccharalis). No Brasil, a liberação do cultivo comercial ocorreu em fevereiro de 2008, sendo liberados apenas eventos contendo a toxina Cry 1A(b). Mais recentemente, houve a liberação de eventos contendo toxina Cry 1F.  Assim, com o uso dessa tecnologia, independente do local ou época onde a lavoura for plantada, a toxina – proteína letal aos insetos-alvo – estará distribuída por toda a planta e durante todo o ciclo.

Figura 1. Spodoptera frugiperda alimentando-se no cartucho do milho (A) e Helicoverpa zea alimentando-se dos grãos na espiga de milho (B).

Avaliação do comportamento do milho-Bt ao ataque da lagarta-do-cartucho em lavouras comerciais

Técnicos da equipe ReHAgro e Pesquisadores da EMBRAPA Milho e Sorgo estão realizando um trabalho de monitoramento de lagartas em lavouras comerciais de milho-Bt em três propriedades da região Central de Minas Gerais: Fazenda São João (Inhaúma), Fazenda Braúnas (Funilândia) e Fazenda Santo Antônio (Matozinhos), sendo que na primeira fazenda, o milho é cultivado sob pivô central e nas outras duas, sem irrigação.

Na fazenda São João, a incidência e danos da lagarta-do-cartucho e lagarta-da-espiga em milho-Bt e não-Bt foram monitorados em uma área cultivada com o híbrido DKB 390. A área total de milho cultivado na fazenda é de aproximadamente 420 ha e somente 16% da área está ocupada com milho-Bt.

Plantas do DKB 390, nos estádios vegetativo V5-V6 (outubro de 2008) e V10-V11 (novembro de 2008) foram avaliadas segundo a escala de danos apresentada na Tabela 1. Apesar de constatada a presença de lagartas sobrevivendo no milho-Bt (estádio V5-V6), cerca de 65% dessas morreram após serem coletadas e mantidas em dieta artificial em laboratório. Também se verificou a ocorrência de lagartas parasitadas, indicando que não existe ação da toxina sobre esse grupo de inimigos naturais.

Tabela 1 - Escala (0 a 5) para avaliação dos danos causados por Spodoptera frugiperda no cartucho do milho:


Nas avaliações, realizadas no estádio V5-V6 (Figura 2A e B), foi observada diferença significativa entre as versões Bt e não-Bt para a incidência da lagarta-do-cartucho (Figura 3A). Esse fato indica a contribuição que o milho-Bt pode dar ao manejo de pragas, reduzindo a susceptibilidade do milho à sua praga-chave, contribuindo para diminuir os prejuízos causados pelos seus danos. Com o passar do tempo e o desenvolvimento das plantas (estádios V10-V11), houve um nivelamento do porcentual de plantas com sintomas de danos nas versões Bt e não-Bt (Figura 3B). 

Figura 2. Aspecto visual do Híbrido DKB 390 de milho não-Bt (A) e milho-Bt (B) no estádio V5-V6 implantado na Fazenda São João, Inhaúma (MG)


Figura 3. Incidência (± Intervalo de confiança P ≥ 0,05) da lagarta-do-cartucho do milho em plantas de milho-Bt (DKB 390) e seu respectivo isogênico não-Bt, avaliada com base nos sintomas de danos, em Inhaúma – MG. (A) estádio V5-V6, (B) estádio V10-11.

Entretanto, dois aspectos importantes devem ser considerados: a) na área cultivada com o milho isogênico não-Bt (convencional), foram realizadas quatro pulverizações, visando o controle da lagarta-do-cartucho e b) a avaliação da intensidade de danos, através da escala visual de notas nos isogênicos Bt e não-Bt, indicou danos mais severos (notas 4 e 5) no isogênico não-Bt (Figura 4).


Figura 4. Avaliação de danos (± Intervalo de confiança P ≥ 0,05) da lagarta-do-cartucho do milho, através de escala de notas, em plantas de milho-Bt (DKB 390) e seu respectivo isogênico não-Bt, com base na escala de notas, em Inhaúma – MG.

As espigas de milho também foram avaliadas quanto à presença da lagarta-do-cartucho e lagarta-da-espiga no estádio R4-R5 (fase de transição do estado pastoso para farináceo). Durante a avaliação, 30 espigas foram coletadas aleatoriamente em cada área (Bt e não-Bt) e verificou-se apenas 3% das espigas de milho-Bt com presença da lagarta-da-espiga, ao passo que na área de milho convencional, 30% das espigas apresentaram pelo menos uma lagarta-da-espiga (Figura 5). Quanto à lagarta-do-cartucho, a incidência foi considerada insignificante. Dessa forma, e de acordo com a literatura, a utilização do milho-Bt pode reduzir a contaminação dos grãos por micotoxinas (grãos ardidos) em função da menor incidência de pragas na espiga, melhorando a qualidade da ração.


Figura 5. Incidência (± Intervalo de confiança P ≥ 0,05) da lagarta-da-espiga do milho em espigas de milho-Bt (DKB 390) e seu respectivo isogênico não-Bt, avaliada no estádio R4-R5, em Inhaúma – MG.

O que estamos aprendendo com o cultivo do milho-Bt 

Com base nestes dados preliminares, verifica-se que a toxina Bt (MON 810) oferece proteção equivalente ou superior à realização de quatro pulverizações com inseticidas. Além do benefício direto, há mais algumas vantagens como: redução no uso de inseticidas e consumo de água, menor exposição do aplicador e dos inimigos naturais aos produtos tóxicos, facilidade de logística na realização dos tratos culturais da lavoura, redução nos riscos de contaminação do solo e da água, dentre outras.

Uma preocupação com o uso intensivo do milho-Bt está na possibilidade da seleção de biótipos (raças) de insetos resistentes à toxina Bt, pois, já existem várias referências de resistência da lagarta-do-cartucho a diferentes grupos de inseticidas. Dessa forma, deve-se recorrer a estratégias que reduzam essas chances. Nesse sentido, a CTNBio (Comissão Técnica de Biossegurança) exige a utilização de áreas de refúgio pelos agricultores que queiram utilizar a tecnologia Bt.

Dessa forma, é extremamente importante que todos os agricultores e profissionais que atuam na assistência técnica, sejam orientados quanto aos cuidados que devem ser observados para que se obtenha a maior eficiência e durabilidade para essa tecnologia. Para isso, a consciência de implantar as áreas de refúgio nas lavouras de milho-Bt é fator essencial para o sucesso da tecnologia ao longo do ano.

Área de refúgio 

Visa basicamente reduzir as chances de cruzamento entre insetos adultos, provenientes de lagartas que se desenvolveram no milho-Bt, selecionando uma raça resistente à proteína letal do Bt. Tem como objetivo a multiplicação de insetos susceptíveis para aumentar as chances de que insetos sobreviventes no milho-Bt cruzem com insetos susceptíveis oriundos da área de refúgio. Tais cruzamentos retardarão a seleção de população de indivíduos resistentes.
A exigência feita pela legislação é a utilização de 10% da área total cultivada com milho-Bt, de um cultivar de milho não-Bt de igual porte e ciclo. Segundo as normas, não existem restrições quanto à pulverização de inseticidas nas áreas de refúgio, desde que não sejam utilizados bioinseticidas à base de B. thuringiensis. Contudo, a premissa básica para a prevenção do aparecimento de resistentes é que a área de refúgio permita a criação de um número suficiente de insetos suscetíveis e que esses se acasalem com os insetos sobreviventes resistentes das áreas de milho-Bt.

Desafios e Perspectivas

Embora a tecnologia do milho-Bt seja revolucionária no controle da lagarta-do-cartucho, produzindo proteção às plantas, a sua utilização deve ser acompanhada de um rigoroso monitoramento e de estratégias para o manejo de possíveis biótipos da lagarta-do-cartucho resistente à toxina do Bt. Entre essas estratégias, destaca-se a utilização de áreas de refúgio pelos produtores. Além disso, fatores como a intensidade do dano em lavouras de milho-Bt precisam ser estudados, com intuito de fornecer mais subsídios na utilização da tecnologia Bt como ferramenta para melhorar a eficácia do MIP na cultura do milho.

É muito importante também não se esquecer de que a tarefa do monitoramento das lavouras não pode ser abandonada, pois existe possibilidade de que após o controle da lagarta-do-cartucho e lagarta-da-espiga pela tecnologia do milho-Bt, outros insetos, que antes eram considerados pragas secundárias, venham a assumir um nível de importância econômica até então desconhecida.


                                                                                   
:: Comentários ::

GILBERTO SOARES ROSA -
Outros

Sim sou Técnico em agricultura e acredito plenamente no emprego to BT nas culturas e que seja de imediato colocado a venda grãos deste milho, portanto, se tiver me enviar uma pequena, amostra,, Rua 03 quadra 03 casa 30 jardim america do norte I, COP, Sao Luis, do Maranhao,,
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Luciana Rodrigues Marques - 04/03/2009 18:52
Outros

Fantástico trabalho...sou suspeita para falar, porque adoro estudar sobre essa tecnologia do Bt; minha monografia foi a respeito da eficiência de alguns Bt's disponíveis no mercado. Parabéns a equipe e em especial a Dra. Rosangela pelo excelente trabalho de pesquisa.Abraços...
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Pedro -
Produtor - Gado de Corte

A semente Bt será aprovada e liberada para cultivo?. Se sim, quando entrará no mercado?
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Henrique Beluti -
Estudante

Gostaria de saber quanto que custa a semente e qual a produtividade que foi alcançada
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Jairi willrich - 04/03/2009 21:04
Produtor - Gado de Leite

Gostaria de saber se existem resultados da utilização do milho Bt na produção de silagem. Att Jairo
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Equipe ReHAgro - 05/03/2009 10:47
Consultor Técnico

Pedro, Segundo nosso estagiário em agicultura, Fernando rati, nem todas empresas produtoras de sementes de milho possuem a tecnologia Bt, mas a comercialização por parte das empresas que possuem a tecnologia começou no início desta safra 2008/09. No caso da fazenda em que as fotos foram registradas, foram utilizados os híbridos Dekalb 390 e Agroceres 9010, ambos contendo a bactéria Bacillus Thuringiensis. Com relação à disponibilidade destas sementes, as empresas Pioneer, DowAgroscience, Monsanto e Syngenta estão legalizadas a comercializá-las. A Pioneer por exemplo já comercializa o insumo desde a safra de verão de 2008 com a marca YieldGard (as sementes tem a letra ''Y'' no final para diferenciar das demais), e já possue 13 híbridos registrados com a tecnologia. A Monsanto, empresa a qual desenvolveu a tecnologia, oferece a partir da Agroceres 10 híbridos, Agroeste 3 híbridos e Dekalb. A Syngenta também já possue alguns híbridos com a tecnologia Bt no mercado, mas pretende que toda a linha de produtos contenha o gene, que futuramente levará as letras ''TL'' no final. Além destas empresas, a DowAgroscience também comercializa as sementes de milho Bt.
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Equipe ReHAgro - 05/03/2009 10:50
Consultor Técnico

Henrique Belutti, Segundo Fernando Rati, estagiário em agricultura da Equipe ReHAgro,nesta safra o custo do milho geneticamente modificado foi cerca de 30% maior que os híbridos convencionais.
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Sidnei Nobre da Silva - 05/03/2009 10:59
Consultor Técnico

Creio que informações sobre a produtividade na colheita das variedades testadas, também são importantes para avaliar o custo-benefício.
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fábio ribeiro loures -
Estudante

Fantastico esse trabalho!! Tenho muitas duvidas a respeito do milho bt. Leio muito sobre isso, pois trabalhei com milho durante toda a faculdade. Queria mais informações sobre o custo médio da implantação da lavoura de bt. Muito obrigado e parabéns
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Wanderley Cesário Rosa - 08/03/2009 11:23
Produtor - Gado de Corte

Parabéns à toda equipe. Fico feliz com mais este avanço que permitirá melhorar sensivelmente a produtividade brasileira por hectare plantado. O milho ainda é a melhor e maior base alimentar para animais confinados e semi-confinados.
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Josnei Romblesperger -
Produtor - Agricultura

Gostaria de salientar que trabalhando com essa tecnologia,seus custos devem ser levados muito a sério e tambem rotação com outras materias.Ter cuidados com outras pragas, para não ocorrer como a soja trangenica!!!
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Túlio Carvalho Villela -
Representante Comercial

Parabéns pelo trabalho, constata mais uma vez que a Biotecnologia veio para ficar, é muito importante, como foi dito no trabalho, preservarmos as áreas de refúgio
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Fernando Rati - 27/03/2009 11:13
Consultor Técnico

Caro Jairi willrich, Já existem híbridos com a tecnologia Bt e recomendados para silagem. Os resultados publicados pelas empresas vendendoras de sementes são satisfatórios, visto que o ataque de certas pragas na cultura são minimizados. É muito importante e essencial o correto manejo e os devidos cuidados em toda as fases da cultura. Fernando Rati, graduando em agronomia, estagiário- Equipe ReHAgro
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tiago augusto -
Estudante

Sou formando em agronomia pela anhanguera educacional de rondonopolis-mt, e meu trabalho de conclusão de curso é a respeito de milho bt, e através deste, parebenizo pelo artigo, que vem para mostrar a evolução da agricultura nacional na produção de grãos. gostaria de saber sobre aspectos técnicos
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Abrecht -
Consultor Técnico

O Bt vai acabar que nem o glifosato, hoje as empresas no PARAGUAI, ja vendem glifosato em pacote fechado (Glifosato + Latifolicida (Pra BUVA (Conyza spp) + Graminicida (Pra Capim Amargoso (Digitária insularis), e daí cade o beneficio dos transgênicos. Galera nós estamos matando os produtores e com certeza vamos ficar sem emprego, os únicos que vão ganhar, e já ganharam, vão ser os MONDEMONIOS, porque de santo eles não tem nada......Abraços , para maiores imformações sobre controle de Buva RR e Amargoso RR, meu mail foodforplant@hotmail.com
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Ana Gabriela - 18/06/2010 20:01
Estudante

Quais são os créditos das figuras?
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