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A elevada incidência de deslocamento de abomaso em uma propriedade leiteira não significa apenas um animal doente, mas sim uma fazenda doente, que necessita de maiores atenções na dieta e manejo nutricional.Saiba mais!
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Artigos Técnicos
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Publicado em
18/03/2009
por
Bolivar Nóbrega de Faria; Médico veterinário, doutor em ciência animal - Equipe ReHAgro
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Deslocamento de Abomaso: uma simples enfermidade ou um
indicador de erro de
manejo?
 A pecuária leiteira mundial, na tentativa
de ser mais eficiente economicamente, cada vez mais está buscando o aumento da
produção de leite por área. Esta maior produtividade tem sido alcançada por meio
do melhoramento genético dos animais visando produção de leite, bem como
melhorias no manejo de forma geral.
Entretanto, em conjunto com as
mudanças no perfil de nossas propriedades, ocorreu também uma alteração nos
problemas por elas enfrentados. Se com a utilização de melhores práticas, é
possível ter um melhor monitoramento e controle das doenças infecciosas, por
outro lado surgiram novas doenças, principalmente relacionadas às mudanças
metabólicas sofridas pelas vacas altas produtoras durante os processos
fisiológicos que envolvem a lactação. Várias doenças podem ser relacionadas a
isso, entre elas a hipocalcemia, a retenção de placenta, a infecção uterina, o
edema de úbere, a cetose e o deslocamento de abomaso. Juntamente
com a mudança no perfil dos animais e das doenças, é necessário buscar um novo
comportamento e compreensão do sistema de produção e os problemas nele
existentes. As doenças em um rebanho leiteiro devem ser observadas não só como
um simples problema metabólico ou infeccioso, mas como um indicador de um
problema de manejo. Na maioria das vezes, leva a prejuízos muito maiores do que
o simples custo de tratamento.
O deslocamento de abomaso é uma
enfermidade cada vez mais comum em nossos rebanhos leiteiros e que se encaixa
bem neste novo perfil de problemas da bovinocultura moderna. Um animal com
deslocamento de abomaso à esquerda, normalmente, apresenta apetite diminuído e
seletivo, desidratação moderada a severa e uma grande queda na produção de
leite. Essa enfermidade, normalmente, não está relacionada à morte rápida em
animais de leite. Normalmente,é facilmente diagnosticado e sua correção é
cirúrgica, por meio de um procedimento simples e rápido de fixação do abomaso em
sua posição anatômica normal. Se o diagnóstico do problema for rápido e a
cirurgia bem executada ocorre um pronto restabelecimento do apetite do animal e
em alguns dias a produção de leite fica reestabelecida a valores próximos aos
considerados normais para o animal. A partir dessas informações, poderia se
considerar que o deslocamento de abomaso seria um problema da bovinocultura
leiteira moderna, de fácil resolução e que não apresentaria grandes problemas
aos produtores. No entanto, não é isso que ocorre. Os deslocamentos
de abomaso à esquerda proporcionam perda econômica nos rebanhos leiteiros devido
aos custos com o tratamento, queda na produção, aumento dos descartes
involuntários e morte. Os custos com o tratamento estão entre R$ 400 a R$ 800
por animal e, mesmo após o tratamento, cerca de 5 a 10% das vacas diagnosticadas
com esta doença são descartadas ou morrem. As vacas tratadas que continuam no
rebanho produzem cerca de 350 Kg de leite a menos nos meses subsequentes ao
deslocamento de abomaso, podendo essas perdas ser ainda maiores. Estudos
americanos mostram ocorrem perdas de até 20% dos casos tratados, sendo que estes
não conseguem passar de 2000 Kg de leite como produção total na lactação
afetada.
Figura
1 – Alterações na produção de leite (kg) nos primeiros dias de lactação de vacas
leiteiras sadias e com deslocamento de abomaso à esquerda. Se o
deslocamento de abomaso ocorrer apenas uma vez na propriedade, ou como casos
esporádicos, realmente, o problema é de fácil solução, a cirúrgica. No entanto,
a incidência de deslocamento de abomaso tem sido cada vez maior nas propriedades
leiteiras no Brasil, acometendo cada vez um número maior de animais, passando a
ser um problema extremamente comum. Essa enfermidade no início da década de 90
era diagnosticada quase exclusivamente em rebanhos de raças européias, como a
holandesa e pardo suíço, mas nesses últimos anos passou a ser relativamente
comum a incidência em rebanhos com vacas mestiças de alta produção. Nas
propriedades onde é constante o diagnóstico de deslocamento de abomaso, a
simples realização da cirurgia não é suficiente para controlar o problema.
Nestes casos, outros animais da propriedade estarão propensos a desenvolver a
enfermidade, levando a altos custos com procedimentos cirúrgicos, grande queda
na produção de leite, nos índices reprodutivos e maior descarte involuntário de
animais, diminuindo, assim, a pressão de seleção exercida e os lucros com as
vendas de animais aptos a produzir. Nestas propriedades com alta incidência de
deslocamento de abomaso, mais importante do que só tratar o problema, é a
preveni-lo. Para isso, se faz necessário o entendimento de seu desenvolvimento e
seus fatores predisponentes. O deslocamento de abomaso é uma doença
multifatorial, ou seja, possui uma grande quantidade de fatores predisponentes
que levam ao seu desenvolvimento. No entanto, não é necessário que todas estas
causas ocorram ao mesmo tempo para o aparecimento da enfermidade. O
pré-requisito mais importante para seu desenvolvimento é a parada total ou
parcial da movimentação do abomaso do animal, com posterior distensão por gases.
Portanto, qualquer fator que leve a menor movimentação do trato digestivo do
animal pode desencadear um processo de deslocamento do abomaso à esquerda.
Várias doenças podem levar a diminuição no consumo e, com isso, menor
movimentação do trato digestivo, sendo as mais comuns a acidose ruminal
subclínica, a laminite, a hipocalcemia, a mastite, a retenção de placenta, a
metrite e a cetose. Um fator importante a ser ressaltado em relação aos fatores
predisponentes do deslocamento de abomaso é que, mesmo existindo uma série de
doenças relacionadas à sua ocorrência, nenhuma bactéria ou vírus é responsável
diretamente pelo deslocamento do abomaso. Com isso, pode se concluir que
o deslocamento de abomaso não é uma doença contagiosa e que foi introduzida por
um novo animal. O problema é do rebanho e de como ele é conduzido. Outra
conclusão importante é que toda vez que há grande incidência de deslocamento de
abomaso, há algum problema na ingestão de alimentos, o que mostra um erro no
manejo da propriedade. Erro que não leva somente ao desenvolvimento do
deslocamento de abomaso, mas leva, principalmente, a menores produções de leite,
mesmo que os animais do rebanho tenham potencial de produção elevado. Se
o deslocamento de abomaso tem tantos fatores predisponentes, como conseguiremos
saber e combater as causas no rebanho? Vamos começar por um dado simples, que
nos norteará nas decisões a serem tomadas na sua prevenção. A primeira pergunta
a se fazer é: quando as vacas estão apresentando deslocamento de abomaso na
propriedade? No início, meio ou fim da lactação? Ou será nas vacas secas? Essas
perguntas são facilmente respondidas com a simples observação e anotação dos
dados dos animais enfermos. A grande maioria dos deslocamentos de
abomaso ocorre no primeiro mês após o parto, ou seja, no início da lactação
(cerca de 85% dos casos nos primeiros 21 dias). A partir dessa informação
podemos concluir que para prevenir o deslocamento de abomaso devemos focar nos
fatores que irão influenciar o início da lactação, prestando mais atenção no
último mês de gestação (vaca seca) e no primeiro mês de lactação.
Coincidentemente, todas as doenças listadas como fatores predisponentes também
ocorrem neste período. Como o deslocamento de abomaso não está relacionado
diretamente a fatores infecciosos e sim a problemas de ingestão de alimentos,
devemos focar em todos os fatores que levam à menor ingestão no período
“pré-deslocamento”. Isso significa que em uma fazenda com grande incidência de
deslocamento de abomaso, provavelmente há erros de manejo no periparto que
promoverão o desenvolvimento de várias outras enfermidades e menores produções
de leite. Tabela 1 - Média de dias de lactação da incidência de desordens
no pós-parto de 8070 vacas holandesas pluríparas no estado de Nova York (Grohn
et al., 1995)
Ao
analisar este período, deve-se focar em fatores que predisponham à menor
ingestão de alimentos, uma vez que o menor consumo está diretamente ligado à
motilidade do trato digestivo, e, consequentemente, do abomaso. A ingestão de
alimentos no período periparto por si só já é baixa, sendo um dos grandes
desafios da bovinocultura de leite moderna. Apesar de ser difícil impedir a
queda da ingestão nesse período alguns pontos devem ser checados e corrigidos
para que se tenha um melhor desempenho animal, como adaptação à dieta,
utilização de dietas completas (TMR), densidade nutricional adequada da dieta,
frequência de fornecimento de alimento, quantidade de fibra fisicamente efetiva,
escore da condição corporal, separação adequada dos lotes e conforto
animal.
Os termos dieta completa, dieta total, ração completa e “total
mixed rations” (TMR) referem-se ao fornecimento de volumosos, concentrados,
suplementos protéicos, vitaminas, minerais e outros aditivos em uma mistura
única. Os ingredientes devem ser misturados o suficiente para prevenir separação
e escolha, sendo a dieta fornecida à vontade aos animais. Este manejo contrasta
com um manejo alimentar bastante usual nas propriedades brasileiras, que
consiste no fornecimento de concentrado durante a ordenha, geralmente de acordo
com os níveis de produção, ficando o volumoso disponível nos cochos durante todo
o dia ou parte deste. Entretanto, esta prática apresenta algumas limitações
importantes, como a rápida ingestão de alimentos ricos em carboidratos
prontamente fermentáveis. A ingestão de alimentos será ainda maior
se além da dieta total for utilizada uma maior frequência de arraçoamento dos
animais. O aumento na frequência de fornecimento da dieta também apresenta um
efeito estabilizador nos parâmetros da ruminais, o que acarreta maior ingestão
de alimentos ao longo do dia com seu maior aproveitamento pelo
animal. O balanceamento adequado da dieta também tem um papel
fundamental no estímulo de consumo dos animais. Apesar de essa observação ser
lógica, nem todas as propriedades trabalham com dietas bem balanceadas. Relações
entre concentrado e volumoso inadequadas são comuns nos rebanhos brasileiros.
Muitas dessas dietas formuladas não apresentam um balanceamento adequado de
fibra fisicamente efetiva e carboidratos não fibrosos, o que acarreta acidose
subclínica nos animais, podendo promover o deslocamento de abomaso. Como
consequência dessas práticas errôneas tem-se, comumente, marcantes flutuações no
ambiente ruminal, com diminuição na ingestão de volumosos por várias horas após
o fornecimento de concentrado, mesmo quando forragens frescas são oferecidas.
Além disso, as mudanças no ambiente ruminal levam ao desenvolvimento de acidose
subclínica, uma doença que predispõe ao deslocamento de abomaso.
A
determinação da presença de acidose subclínica no rebanho nem sempre é muito
fácil de estabelecer, mas este tipo de enfermidade promove uma marcante
alteração no leite, a inversão entre as concentrações de gordura e proteína.
Portanto, se o rebanho apresentar grande quantidade de deslocamentos de abomaso
e a concentração de gordura no leite estiver menor do que a de proteína, estamos
na presença de acidose subclínica, mostrando que há problemas na dieta do
periparto.
Outro ponto importante no balanceamento das dietas é a
quantidade de macro e microminerais, bem como vitaminas, que muitas vezes são
negligenciados pelos técnicos, sendo que as dietas apresentam valores inferiores
às necessidades dos animais. Em levantamento realizado na região central de
Minas Gerais, cerca de 90% das propriedades analisadas não apresentavam
balanceamento correto de selênio e vitamina E, nutrientes essenciais para o bom
funcionamento do sistema imune.
Estas propriedades também não se
preocupavam com o balanço cátion-aniônico da dieta, uma ação importante na
prevenção da retenção de placenta e hipocalcemia (síndrome da vaca deitada),
fatores predisponentes do deslocamento de abomaso. Rebanhos que apresentam alta
incidência de deslocamento de abomaso juntamente com um número elevado de casos
de retenção de placenta e hipocalcemia, podem apresentar falhas no manejo
alimentar das vacas no pré-parto. Nesse caso, a correção não seria relacionada
ao uso de concentrados, mais sim em uma mistura mineral adequada para suprir as
necessidades do animal em cada fase de seu ciclo produtivo.
Outro ponto,
de mais fácil observação, que desempenha um papel importante na ingestão de
alimentos em vacas no início de lactação, é o escore de condição corporal. Vacas
muito gordas (escore corporal >4, em uma escala de 1 a 5) possuem menor
apetite quando comparado a vacas com condição corporal moderada (escore corporal
entre 3 e 4, em uma escala de 1 a 5). Essa menor ingestão ocorre mesmo que todos
os fatores relatados anteriormente estejam ajustados. Vacas normalmente chegam
ao momento do parto com escore elevado por dois motivos principais: problemas
reprodutivos, que proporcionaram um período seco muito longo ou dietas muito
ricas em energia no final da lactação. Nesses dois casos a correção do problema
não será realizada no periparto, sendo que a tentativa de emagrecer as vacas
nesse período se tornam desastrosas, aumentando ainda mais a incidência de
deslocamento de abomaso no pós-parto. As medidas de controle devem ser tomadas
através de um monitoramento simples de escore de condição corporal e ajuste da
dieta.
Devido a todos os fatores apresentados, a elevada incidência de
deslocamento de abomaso em uma propriedade leiteira não significa apenas um
animal doente, mas sim uma fazenda doente, que necessita de maiores atenções na
dieta e manejo nutricional.
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:: Comentários ::
Ranilson Rego Cavalcanti - 23/03/2009 09:32
Consultor Técnico
Artigos como este são de grande valor, não só pelo seu conteúdo, bem elaborado, mas por nos manter informados sobre todos os detalhes a serem observados nesta enfermidade tão frequente no meio da pecuária leiteira especializada.
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Joao mendes de Souza Filho. -
Outros
Muito obrigado. Como medico veterinario, gostei da matéria.Não deixa de ser uma doença moderna. Tenho grande interesse em acompanhar um caso deste com um colega, do diagnóstico à cirurgia.
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