Não existem padrões pré-estabelecidos de combate à crise, mas sim critérios a serem seguidos para encontrar o melhor caminho de vencê-la. Leia mais no texto "O papel da assistência técnica nos períodos de crise".
Ponto de Vista
Publicado em 23/03/2009 por Clóvis Corrêa; Médico veterinário, doutor em ciência animal - Diretor do ReHAgro

O papel da assistência técnica e/ou consultoria na crise

Apesar de ser o assunto mais badalado do momento e, com certeza, ser a palavra mais dita, escrever sobre crise na atualidade ainda gera algum desconforto. Crise é diferente de um problema. É um evento imprevisível, que, potencialmente, pode provocar algum prejuízo à organização ou empresa. Porém, o que aparentemente é visto como um grande risco pode, ao mesmo tempo, ser uma grande oportunidade de crescimento e avaliação da atividade.
 
Nessa preocupação de “vencer a crise”, temos as mais variadas reações: de pessoas que a enxergam como um grande mal, e depositam nela todo o seu insucesso, às pessoas que vêem essa situação como uma grande oportunidade para prosperar.

Assim, a primeira ponderação a fazer é uma avaliação de que falar da crise e inseri-la no seu contexto como uma verdade imutável traz um pessimismo perigoso para qualquer empresa. Nesse momento, mais do que nunca, é necessário ser cuidadoso, mas também otimista para conseguir enxergar com clareza os pontos críticos e as oportunidades, adequando-se ao novo cenário. O que temos buscado fazer nesse período é exatamente isso: trabalhar com mais otimismo e crença em nossos caminhos. Não focar a crise como uma ameaça, mas sim como uma amostra da necessidade de sermos cada vez mais habilidosos para nos tornar competitivos no setor em que estamos inseridos.

No caso específico da pecuária leiteira, sabemos que estamos passando por um momento difícil. No final do ano de 2007 e início do ano de 2008 vivemos uma verdadeira euforia. Os preços eram excepcionais e geravam um nível de remuneração acima do normal. Apesar de todos quererem acreditar que aqueles patamares se manteriam por algum tempo, a lógica não era essa. Nenhuma atividade se mantém com lucros super normais por longo período, porque a lei da oferta e da procura promove os ajustes. No entanto, isso ocorreu mais rápido do que se podia imaginar. Houve aumento de oferta e, para complicar, o cenário mundial trouxe uma retração na demanda.

O resultado foi realmente um cenário ruim para o produtor, com preços muito baixos e uma grande perda de margem. Dessa forma, podemos dizer que realmente vivemos um momento crítico. Passaremos a comentar sobre esse cenário com uma lógica que busca as oportunidades que a crise oferece e no qual o papel da consultoria e da assistência técnica se torna ainda mais decisivo no sucesso do negócio.

Sem dúvida, a crise seleciona os mais eficientes e mais uma vez a lei da oferta e da procura vai agir sobre o mercado. Provavelmente, os produtores que estiverem menos eficientes tendem a sofrer mais e a sair do mercado. Aqueles que estiverem mais competitivos e estruturados na atividade, tendem a suportar mais tempo o momento difícil e possivelmente poderão usufruir de momentos melhores, que provavelmente estarão por vir.

Portanto, temos duas linhas em que acreditamos que o papel do assistente técnico ou do consultor é importante quando se pensa em crise. A primeira se refere a quanto o seu trabalho contínuo nas empresas está contribuindo para que seus clientes sejam mais competitivos e estejam mais preparados para a crise. A segunda se refere ao seu papel como apoiador da tomada de decisão nos momentos de crise.

O papel da assistência técnica e da consultoria na competitividade das empresas

Uma premissa básica para a sustentabilidade de qualquer trabalho de prestação de serviço é que ele gere um benefício maior que seu custo. Portanto, o técnico obrigatoriamente precisa gerar benefício concreto ao seu cliente para que ele tenha um trabalho sustentável. Entendemos que o resultado de um trabalho de assistência técnica ou consultoria bem sucedida deve sempre aumentar a competitividade do cliente. Em que linhas isso pode e deve ocorrer? Vejamos as principais delas:


- Construção, passo a passo, do planejamento estratégico da empresa, auxiliando na definição clara das diretrizes do negócio, através de discussões com os gestores sobre quais são os objetivos da empresa. Muitas vezes, percebemos que as fazendas estão sendo conduzidas sem uma definição clara de um norte, de um alvo a ser atingido. Temos insistido quanto à importância dessa definição para o sucesso de uma empresa. Acreditamos que objetivos claros e bem definidos trazem muito mais energia no trabalho do dia-a-dia. Saber para onde está indo e ter toda a equipe conhecendo o objetivo aumenta a chance de ter pessoas envolvidas com essa busca. Por isso, acreditamos que o técnico pode ter um importante papel estimulando a reflexão e trazendo informações que enriqueçam a discussão e ajudam na definição de um objetivo real e bem estruturado.

- Avaliação de todos os potenciais riscos e oportunidades por meio de simulação de cenários e situações, preparando a empresa para atuar em cada um deles.

- Definição clara de sistema de produção, orientando as decisões de forma a propor um sistema adequado à realidade, competitivo e capaz de cumprir o objetivo a que foi proposto. Entende-se por sistema de produção a forma utilizada pela fazenda para produzir. Isso envolve o tipo de animal, a opção forrageira, as instalações, o nível de produção, o nível de intensificação e diversas outras variáveis. O técnico pode ter um papel importante na definição do sistema de produção. Um sistema de produção bem definido deve ter uma lógica e as decisões devem ter uma razão técnica e econômica.

- Contribuição como fonte de conhecimento técnico. Um mundo competitivo como o de hoje não deixa espaço para empresas que trabalham abrindo mão do conhecimento. O técnico precisa ser capaz de adaptar o conhecimento à realidade de cada empresa. Enfim, existe uma infinidade de conhecimentos disponíveis e o que se espera do técnico é que esteja atualizado e seja capaz de propor tecnologias adequadas e realmente capazes de melhorar a competitividade das fazendas.

- Capacidade de gerenciar e tomar decisões no dia-a-dia. A existência de um sistema de gestão que disponibilize informações rápidas para que o gestor se baseie em sua tomada de decisão pode ser decisiva. Um importante papel da assistência técnica ou da consultoria é contribuir para que se tenha uma coleta de dados estruturada, que gere informações adequadas para a tomada de decisões tanto na área financeira como na zootécnica.

- Definição de indicadores capazes de monitorar o negócio. O técnico pode contribuir na definição de quais são esses indicadores, quais são as metas a serem atingidas, identificando as falhas que estejam impedindo que se atinja o desempenho esperado e auxiliando na definição das ações a serem tomadas. A utilização de indicadores norteia a definição das prioridades de ação e auxilia na tomada de decisão. Além disso, permite a divisão das metas com a equipe operacional, fazendo com que eles possam estar envolvidos e motivados.

- Desenvolvimento da liderança. O técnico deve ser fonte de conhecimento nessa área específica ajudando os gestores a compreenderem seu papel e se conhecerem como líderes ou simplesmente ser um agente de motivação da liderança. Ambos os papéis são muito importantes para a condução da equipe pelos líderes.

- Busca do comprometimento de toda a equipe, montando um time treinado e motivado, consciente dos desafios a serem enfrentados

Resumindo, acreditamos que uma fazenda precisa ter:

- Um objetivo bem definido, sabendo aonde quer chegar;

- Um sistema de produção bem definido e capaz de fazê-la competitiva;

- Conhecimento técnico de seu negócio e capacidade de adaptar o conhecimento à sua realidade e à conjuntura do negocio;

- Cultura de tomada de decisão no dia-a-dia a partir de informações geradas em sua própria realidade;

- Conhecimento dos indicadores de eficiência de seu negócio e uso dos mesmos para tomada de decisão e motivação de sua equipe;

- Liderança eficaz

Uma fazenda que tem essas premissas trabalhadas, provavelmente, estará produzindo de maneira competitiva e, por isso, estará preparada para enfrentar a crise, tomando decisões certas e sobrevivendo às dificuldades. Dessa forma, a propriedade estará apta a atuar no mercado nos momentos melhores, que normalmente sucedem às crises.

Portanto, se o trabalho de assistência técnica ou consultoria está desenvolvendo os itens citados acima ele estará realmente contribuindo para que empresa assistida possa se diferenciar em momentos difíceis.

O papel da assistência técnica e da consultoria no momento da crise

O primeiro ponto importante para que o técnico seja útil no momento da crise é a visão global. Ela permite a compreensão das dificuldades do momento e a consciência de que existe a possibilidade se tomar decisões que fujam do ideal técnico, mas que podem ser necessárias naquela situação. Muitas vezes, será preciso “pensar fora da caixa”, o que pode significar uma mudança do modelo de negócios da empresa para se ajustar às novas necessidades.

Com uma visão global o técnico pode ser um apoiador para que analise profundamente cada medida, evitando que se tomem decisões desesperadas que possam agravar o problema da empresa.

A gestão de uma empresa deve sempre estar atenta ao seu fluxo de caixa e em momentos de crise isso se torna ainda mais importante. Nesses momentos, pode ser necessário tomar decisões que podem não ser as melhores sob ponto de vista do resultado técnico ou econômico, mas que sejam necessárias para atender a uma necessidade de caixa.

Exemplos disso podem ser a venda de categorias não produtivas, que poderão fazer falta no futuro, ou mesmo a restrição alimentar de categorias que não trazem impacto imediato em produção. Essas são medidas arriscadas e que podem ser necessárias. O técnico tem importante papel nesse momento ajudando a definir a intensidade da medida e mostrando ao empresário o tamanho do risco futuro que está assumindo.

Outro exemplo, é a definição do grupo de vacas que não está deixando margem de contribuição significativa e a secagem desses animais. Muitas vezes, isso é feito de maneira empírica e o técnico pode auxiliar o empresário para que isso seja feito de maneira estruturada, calculando o nível de produção em que as vacas não deixam margem de contribuição na realidade daquela fazenda e com isso secando os animais certos.

É muito comum em momentos de crise que se tenha a pretensão de cortar gastos com alimentação. Isso tem uma lógica empresarial, já que a alimentação é o maior custo e por isso pode trazer grande impacto. É importante que o técnico consiga apoiar com conhecimento para que não sejam feitos cortes de gastos que tragam impacto direto com redução de produção e, conseqüentemente, de faturamento. Essas medidas são arriscadas e muitas vezes não podem ser descartadas. O técnico pode ser importante apoio para que sejam tomadas medidas calculadas e com riscos ponderados.

Outro aspecto muito comum nas crises é a necessidade de corte ou priorização de investimentos. A equipe técnica pode apoiar o empresário na reflexão de que investimentos são realmente essenciais para a sustentabilidade do negócio e quais podem ser adiados sem grandes riscos.

Um bom suporte técnico permite também que o impacto de cada medida seja calculado e que os riscos sejam bem conhecidos. Para isso, é necessário que o técnico esteja solidário com o empresário compreendendo as necessidades às vezes radicais dos momentos de crise e que exista um ambiente de confiança e parceria, onde as decisões sejam tomadas em conjunto, com a palavra final do empresário.

Enfim, um bom trabalho de assistência técnica pode ser vital para que as fazendas enfrentem os momentos de crise. Isso pode ser verdade tanto devido ao potencial que um bom trabalho tem para aumentar a competitividade da fazenda e fazê-la mais forte na crise, quanto devido ao apoio na tomada de decisão durante esse momento.

A grande mensagem que podemos deixar é que não existem padrões pré-estabelecidos de combate à crise, mas existem critérios a serem seguidos para encontrar o melhor caminho de vencê-la: agir com otimismo e empreendedorismo, não perder o controle emocional, não acreditar em tudo que se ouve, buscar auxílio de profissionais qualificados, envolver e motivar a equipe, ser flexível, inteirando-se de novas tecnologias de produção e gestão. Pense nisso!


:: Comentários ::

Adilton Ferraz -
Consultor Técnico

Excelente artigo. Pois é, devemos ter medo da cara do bicho e não do reboliço. Da mesma forma que um bom negócio tem o seu gargalo, toda dificuldade apresenta uma janela para a sua solução. Abraço, Adilton Ferraz
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Mario Lucio Maciel -
Consultor Técnico

Muito bom Sr. Clovis. Não tem o que acrescentar neste artigo, a grande dificuldade é os produtores enxergarem os fatos. Parabéns.
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Paulo Mariani - 05/04/2009 22:44
Produtor - Gado de Leite

Muito importante o artigo, devemos tirar as lições nestes tempos difíceis. Muito embora no meu caso como produtor realizei todos os investimentos necessários naquele período bastante favorável, e agora estes investimentos tem de ser pagos.
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Túlio Carvalho Villela -
Consultor Técnico

Parabéns, nos momentos de dificuldades sempre destaca aqueles que realmente são profissionais, e estão focados nos seus objetivos, buscando sempre adequar a realidade.
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Irineu Sena -
Consultor Técnico

Ótima matéria. Parabéns! Nota 10
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