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Há quantos dias você não monitora o manejo nutricional do seu rebanho? Leia e conheça mais sobre erros rotineiros que acontecem no manejo nutricional de fazendas leiteiras.
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Artigos Técnicos
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Publicado em
30/04/2009
por
Hudson Costa, médico veterinário, doutorando em Ciência Animal, professor de Bovinocultura de Leite e Nutrição do curso Medicina Veterinária da PUC Minas e membro da Equipe ReHAgro.
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Há quantos dias você não monitora o manejo nutricional do seu rebanho?

É conhecido por todos que trabalham com nutrição que existem três tipos de dieta: a do nutricionista, a do tratador e a que a vaca consome, sendo o ideal que elas estejam o mais próximo possível uma da outra. Como nutricionista há oito anos, tenho visto em muitas fazendas que esse conceito não tem sido seguido à risca. Não receio dizer que na maioria das fazendas do Brasil o manejo nutricional tem sido negligenciado e rotinas de monitoramento não são feitas de forma diária. Não podemos esquecer que a nutrição representa 60 a 70% do custo de produção para ser conduzida de forma tão solta nas fazendas.
Além da questão do custo, o manejo da nutrição negligenciado em uma fazenda pode afetar negativamente a composição do leite, o que define preço final do produto mais baixo, ocasionar queda de produção, levando à perda de receita, abalar a saúde das vacas, que também afeta em curto prazo a produção de leite e aumento do descarte, piorar a reprodução, aumentando o intervalo entre partos e, em longo prazo, afetar a produção e aumentar o descarte de animais. Mesmo com tantos prejuízos, muitas das fazendas com conhecimento de causa sobre os itens mencionados continuam desatentas e relaxadas. Isso se chama rotina mal gerenciada e é preciso ter cuidado para não ser engolido por essa situação. Maior atenção deve ser dada tanto pelo assistente técnico, quanto pela gerência, que podem cair em uma armadilha onde todos saem perdendo, principalmente, a fazenda. Principais e mais comuns erros da nutrição e do manejo nutricional em fazendas
Muitos erros ocorrem por falhas de comunicação entre a assistência técnica, gerência e tratadores.
Primeiro, é preciso entender o que é matéria seca e matéria natural. A necessidade de consumo de uma vaca de leite é em quilos de matéria seca. A matéria seca são todos os nutrientes (proteína, carboidrato fibroso e não-fibroso, lipídios e minerais) menos a água. O alimento oferecido ao animal é chamado de matéria natural, que é a matéria seca (MS) somada à umidade (U), obtendo 100% desse alimento. Os alimentos forrageiros têm uma grande variação no seu teor de matéria seca/umidade (tabela 1) e dentro da mesma forragem pode ocorrer variação (ex: silagem de milho: 30% MS + 70 % U versus 38% MS + 62% U).
Tabela 1: Percentual de matéria seca e umidade de alguns alimentos forrageiros
Entendido o que significa matéria seca e matéria natural, um erro comum cometido nas fazendas é que a maioria dos nutricionistas deixa a recomendação em quilos de matéria natural e não em quilos de matéria seca. Qual a implicação disso? Primeiro: se o teor de matéria seca da forragem muda e não houve ajuste, o consumo de quilos de matéria seca por dia também muda para mais ou para menos. Dessa forma, não iremos atender o consumo de matéria seca do animal proposto pelo balanceamento da dieta. Observando na tabela 2 a silagem de milho, que tinha 35% MS e caiu para 30% de MS, para manter o mesmo consumo de quilos de matéria seca por dia (10 kg) proposto pelo balanceamento, será preciso fornecer mais desse alimento em matéria natural, pois o percentual de água aumentou de 65% para 70%.
Tabela 2: Diferença no consumo de matéria seca e matéria natural conforme o teor de matéria seca da silagem de milho
*MS: matéria seca, MN: matéria natural; A e B consumo matéria natural foi ajustado, C não foi feito ajuste do teor de matéria seca.
Ao chegar à frente do cocho ou pista de alimentação antes de fazer o primeiro trato do dia, se não houver alimento e o trabalho for feito com um percentual de sobra, as seguintes perguntas devem ser feitas: a) Aumentou o número de animais no lote e não houve ajuste de quantidade colocada da dieta? Esse é um erro muito comum.
b) As vacas estão consumindo mais porque mudou a matéria seca da forragem ou porque o consumo dos animais aumentou?
Na segunda pergunta a resposta pode ser obtida determinando a matéria seca do alimento em um Koster (Foto 1) ou no microondas (procedimento quadro abaixo). Se o teor de matéria seca caiu (tabela 1) e não foi feito um ajuste, o animal passa a consumir menos kg de matéria seca (1,4 kg). Isso levará à queda de produção e/ou de condição corporal. Na situação ilustrada, seria necessário aumentar a quantidade de forragem colocada de 28,6 para 33,3 kg pelo fato de haver mais água, mantendo assim o consumo de matéria seca determinado pelo balanceamento (10 kg). Importante: se o nutricionista trabalha em determinada fazenda com forragens que podem variar o teor de matéria seca (ex: silagens, pré-secados e/ou cana-de-açúcar), a recomendação deve ser deixada em consumo de quilos de matéria seca e, pelo menos duas vezes por semana, a forragem deve ser analisada. Mas, como converter quilos de matéria seca em quilos de matéria natural, que é como o alimento é oferecido ao frente do animal? Tendo o teor de matéria seca da forragem, basta pegar a quantidade em quilos de matéria seca e dividir pelo percentual de matéria seca analisado pelo koster ou microondas.
Exemplo:
9 kilos de matéria seca de cana com 30% de matéria seca
Cálculo: 9/30% (0,30) = 30 kilos de cana matéria natural a ser fornecido por vaca por dia.
Procedimento de determinação da matéria seca no microondas:
*Referência: "American Standard Association Standards" de 1992 (ASAE S358.2) - "Moisture Measurement-Forages".
Foto 1 - Koster
Se houver computador na fazenda, é interssante fazer uma planilha no excel da rotina diária do trato, fazer a correção de quilos de matéria seca para quilos de matéria natural e fazer o ajuste do teor de matéria seca sempre que necessário (tabela 2). Caso o percentual de matéria seca não mudar é porque as vacas estão consumindo mais e neste caso devem-se aumentar proporcionalmente todos os ingredientes da dieta para que essa mantenha a sua densidade nutricional. Normalmente, trabalhamos com 5 a 10% de aumento.
Em sequência, dois erros comuns de ocorrer com totalmix (vagão misturador de dieta completa) e que aconteceram comigo, recentemente, em uma fazenda em que presto consultoria. O primeiro erro, visualizado na foto abaixo, percebe-se que o totalmix não misturou bem a silagem de milho com os concentrados. Isso pode acontecer em duas situações: tempo de mistura inadequado ou o que ocorreu nessa fazenda, conforme descrito a seguir. No momento que estava sendo colocada a silagem, o vagão estava ligado, misturando essa ao restante dos ingredientes que já estavam dentro. Neste caso, os últimos garfos de silagem adicionados aí não serão bem misturados ao restante da dieta, pois logo após o tratador desliga o totalmix. Dessa forma, a parte de baixo do vagão irá ficar extremamente misturada com maior proporção de concentrado e menor tamanho de partícula, ocorrendo o contrário na parte de cima. Ou seja, o grupo de animais que recebeu a dieta da parte de baixo do vagão vai consumir uma dieta muito densa, com mais concentrado e menos silagem de milho, o que irá levar a um alto risco de acidose nos animais. Já o grupo de vacas que receber a dieta da parte de cima, irá consumir uma dieta menos densa, com menos concentrado e mais silagem de milho, irão perder peso e, se forem do pós-parto, haverá o risco de cetose subclínica. O ponto fundamental, que não estava ocorrendo neste caso, é acionar o vagão após colocar todos os ingredientes, inclusive a forragem. Normalmente ,5 a 7 minutos de tempo de mistura são suficientes.O uso do totalmix em uma fazenda é uma excelente ferramenta para reduzir distúrbios metabólicos e aumentar a produção de leite, no entanto, o uso incorreto do equipamento pode ter efeito contrário. Averiguar o tempo de mistura é fundamental para que a dieta fique bem misturada sem reduzir muito o tamanho de partícula.
Dieta mal misturada na totalmix Outra falha comum será discutida conforme a planilha abaixo, que deve ser impressa e ficar na mão dos tratadores. Veja o exemplo:
Conforme observado, na dieta de alta produção estão cadastrados 2 lotes (1 e 2), e nas dietas de baixa produção 3 lotes (3, 4 e 6). O tratador, no momento da descarga das dietas do lote 1 e 2, deixou dentro do vagão 230 kg de dieta para alimentar o lote 6. Porém, esse lote, conforme verificado na planilha, está cadastrado na dieta de baixa produção. Ou seja, irá faltar alimento nos lotes 1 e 2 , de alta produção, levando à queda imediata de leite nesse lote e maior quantidade de sobra nos lotes 3 e 4 (baixa produção). Persistindo essa rotina por tempo prolongado nos lotes 3 e 4, há a tendência de engordar os animais. Esse tipo de erro ocorre com freqüência nas fazendas por falta de comunicação diária entre gerência e tratadores, além da falta de monitoramento da rotina dos tratadores. É comum os funcionários responsáveis pelo trato decorar as dietas e não usar a folha impressa, o que favorece o erro. Outra situação, é o folguista ou um funcionário novo na rotina do trato realizarem o serviço sem ter sido explicado de forma clara todo o procedimento.
Conversando com um amigo nutricionista, fui informado de um erro que ele presenciou recentemente em uma fazenda e que pode acontecer facilmente. O erro é não estar atento à calibragem das balanças em que os alimentos são pesados. No caso descrito por ele, o erro era na balança da totalmix, que estava desregulada, pesando os ingredientes para menor peso. A falha foi descoberta após fazer uma análise da dieta, onde essa estava com 21% de proteína bruta na matéria seca e o balanceamento da deita era para 16% de proteína. A balança da totalmix estava pesando o saco de farelo de soja de 40 kg como 30 kg, isto é, na mistura final havia excesso de farelo de soja, o que subiu a proteína da dieta. A implicação final desse erro é o custo da dieta extremamente alto sem aumento da produção de leite, com risco até de queda de produção. Se persistir por tempo prolongado, pode ocorrer efeito negativo na reprodução das vacas. Vale lembrar que esse tipo de erro pode acontecer com qualquer tipo de balança da fazenda e não necessariamente só com a balança da totalmix.
O “olhômetro” é outro problema sério no manejo nutricional. O nutricionista determina que em um lote devam ser fornecidos 500 kg de forragem na linha de cocho e essa quantidade é colocada sem pesar. A implicação dessa rotina é a dieta desbalanceada, furo no controle de estoque da forragem e da avaliação econômica da dieta. Fazendas que não possuem totalmix com balança, devem padronizar a quantidade pesando rotineiramente balaios ou garfos utilizados para colocar o alimento no cocho, lembrando que o teor de matéria seca da mesma forragem muda. Esse procedimento, normalmente, não acontece, e quando é feito, a quantidade de balaios e garfos é discriminada na folha do trato, mas os tratadores muitas vezes usam porque decoram as quantidades (ex: 100 garfos de 5 kg= 500 kg). Nesse caso, com certeza ocorrerão erros, principalmente se houver dois funcionários na rotina do trato ou algo desconcentrar o tratador naquele momento. Esse texto fala do simples, do que não é complexo dentro da nutrição e, talvez por isso, negligenciemos situações de rotina nas fazendas quanto ao manejo nutricional. Erros pequenos podem levar a grandes prejuízos. Para evitar essas situações descritas, é necessário implantar nas fazendas as chamadas POPs (Procedimento Operacional Padrão) do manejo nutricional e ter certeza que realmente a rotina está sendo cumprida de forma correta.
O treinamento para capacitação dos funcionários, nesse caso tratadores, e o entendimento e envolvimento deles no manejo nutricional são fundamentais para garantir uma nutrição bem conduzida na fazenda e sem prejuízos. Nas situações descritas acima, é inadmissível o produtor reclamar do preço do leite, pois é preciso enxergar melhor a fazenda da porteira para dentro. Alimentar vacas, além de muita ciência, é também uma grande arte!!!
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:: Comentários ::
Reginaldo André - 04/05/2009 20:12
Funcionário de Fazenda
Ótima matéria. Para nós será de grande valia, pois hoje é que estamos buscando para poder continuar na atividade. Obrigado.
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Wendel Ribeiro -
Consultor Técnico
Parabéns pelo artigo, gostaria que todo produtor de leite tivesse a oportunidade de ler este artigo. Principalmente aqueles que estão interessados em aumentar a produtividade dos animais ou que estão sofrendo com oscilações no consumo de alimento ou produção de leite, com problemas na fertilidade de suas vacas etc. Eu também tive uma experiência parecida em uma propriedade de cabras de alta produção, onde presto consultoria. O problema foi com a balança usada para pesar a dieta, o trato era pesado todos os dias, até que ficamos sem a balança durante 15 dias. O tratador disse que não iria ter problema pois estava acostumado com os pesos e iria fazer igual. No período que ficamos sem a balança a produção caiu 15% e quando a nova balança chegou, a produção voltou a subir até se estabilizar no patamar de antes. Atualmente a maioria dos produtores estão investindo em Inseminação Artificial, em busca de produtividade, mas sem atentar a estes detalhes poucos conseguirão com que seus animais expressem todo o seu potencial genético.
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Marcelo - 05/05/2009 21:51
Produtor - Gado de Leite
Li esta reportagem no Balde Branco Nº 534, mês de abril/09 e achei de grande valia para os produtores que querem aprender sobre nutrição, pois é sem dúvida o que mais onera na produção leiteira e que talvez passe mais desapercebido por muitos.
Vocês estão de parabéns pela reportagem.
Gostaria de fazer algumas perguntas e tirar algumas dúvidas que me acompanham e não obtive resposta.
Para isso, segue meu email para que possam corresponder comigo.
marcelommeirelles@hotmail.com
Grato pela atenção,
Marcelo
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mauro - 08/05/2009 20:37
Consultor Técnico
legal
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mauro -
Consultor Técnico
Quanto tempo é permitido para que uma vaca holandesa fique na sala de espera?
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Mário Henrique F. Mourthé -
Outros
Excelente artigo. Acrescentaria ainda a desuniformidade de lotes, principalmente onde vacas e primíparas são alimentadas juntas e/ou com diferentes graus de sangue, resultando em diferenças de tamanho. Associado ao efeito de dominância, poderá ocorrer diferenças de consumo, faltando alimento principalmente para as novilhas e/ou animais menores.
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Carla Paim -
Consultor Técnico
Boa Tarde.
Na verdade fiquei em dúvida quanto ao carregamento de silagem com a totalmix, pois foi comentado que em uma propriedade quando a silagem estava sendo carregada o vagão estava ligado o que gerou uma mistura mau feita. A dúvida é: quando for carregar a silagem com a fresa, temos este problema? Como devemos fazer para carregar com o vagão desligado? Obrigada.
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Equipe ReHAgro - 06/08/2009 16:17
Consultor Técnico
Caro Mauro, o tamanho do lote deve ser projetado para que as vacas fiquem no máximo uma hora na sala de espera.
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adriano calixto sobreira -
Estudante
O artigo é muito rico em informações e altamente simples de entender.
O manejo adequado dá retorno e o errado leva ao prejuizo...
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Maurício França -
Consultor Técnico
Este tipo de artigo comentando expriências rotineiras no campo, leva-nos a antecipar o problema, e isto, nos economiza tempo e dinheiro, buscando a nossa prioridade que é a eficiêcia produtiva! Parábens pelo artigo e obrigado por lembrar a forma de verificarmos a MS, pois esta é simples e prática.
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Escreva aqui o seu comentário sobre o artigo. Ele é muito importante para gerar discussões produtivas sobre o assunto. Contribua!
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