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Monitoramento de parâmetros metabólicos sanguíneos durante o período de transição - conheça mais uma ferramenta aliada no gerenciamento do manejo do período de transição
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Artigos Técnicos
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Publicado em
14/07/2009
por
Euler Rabelo, Médico Veterinário, PhD em Nutrição Animal - Equipe ReHAgro.
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Monitoramento de parâmetros metabólicos sanguíneos durante o período de transição

O período de transição que compreende as três semanas antes do parto e as três semanas pós-parto é um período de grande importância para rebanhos leiteiros. Este é um período de grande desafio para o animal, pois envolve modificações no metabolismo e na fisiologia da vaca leiteira preparando para o parto e início da produção de leite. Fazendas que possuem um manejo ruim nesse momento estão susceptíveis a uma alta incidência de problemas relacionados ao periparto, como retenção de placenta, metrite, mastite, deslocamento de abomaso, cetoses, hipocalcemia clínica e outros. Todos esses problemas estão relacionados a uma menor produção de leite da vaca e do rebanho, maior chance do animal ser descartado e comprometimento da eficiência reprodutiva. A maioria das anomalias do período de transição possui algum elemento metabólico como um componente causal da doença clínica. O que normalmente muitas fazendas fazem é monitorar as ocorrências clínicas de desordens e eventos anormais durante o período de transição como forma de monitoramento do manejo nutricional e geral durante esse período. Citando aquele velho dito de que “o que não se mede, não se administra”, o monitoramento de problemas clínicos já é um grande avanço em muitas propriedades leiteiras. No entanto, sabemos que problemas clínicos são “somente a ponta de um iceberg”, ou seja, a maior parte das perdas econômicas está relacionada a problemas subclínicos que comprometem a produtividade do animal e causam grandes prejuízos a fazenda leiteira e geralmente não são identificados. Uma forma de monitoramento é por meio da análise de parâmetros metabólicos, visando o gerenciamento da qualidade do período de transição. A interpretação de parâmetros metabólicos sanguíneos com foco no rebanho ou grupo de animais e não no animal individualmente é essencial, já que pouco se sabe sobre os benefícios de tratar indivíduos com altos parâmetros metabólicos (Duffield e LeBlanc, 2009). Metabolitos do soro a serem considerados
Concentrações circulantes de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e β-hidroxibutirato (BHBA) medem o quão eficiente está sendo a adaptação ao balanço energético negativo. A concentração sérica de AGNE reflete a magnitude de mobilização de gordura de reservas corporais e BHBA reflete a magnitude de oxidação de triglicérides no fígado. Os corpos cetônicos (BHBA, acetona e acetoacetato) são metabólicos intermediários da oxidação de ácidos graxos. Quando o aporte de AGNE ao fígado ultrapassa a capacidade da glândula em completamente oxidar os ácidos graxos, visando o suprimento de energia, a quantidade de corpos cetônicos produzidos aumenta. Os corpos cetônicos podem ser usados pelo músculo como uma fonte de energia alternativa à glicose, redirecionado ou poupando glicose para a produção de leite (Herdt, 2000). No entanto, na produção de corpos cetônicos não existe a produção da mesma quantidade de energia líquida em relação à completa oxidação de ácidos graxos. O aumento nas concentrações sanguíneas de corpos cetônicos está relacionada com a diminuição do consumo.
Glicose é o principal combustível metabólico e vital para o funcionamento dos órgãos , crescimento fetal e produção de leite. Em vacas leiteiras, a maior parte da demanda energética para produção de leite é atendida pela gliconeogênese. Concentrações sanguíneas de glicose estão sob rígido controle homeostático. Portanto, apesar de sua importância metabólica, é um parâmetro ruim para monitoramento e investigação em rebanhos com problemas no período de transição (Herdt, 2000).
A aspartato aminotransferase (AST) é uma enzima que aumenta na corrente sanguínea com a danificação de células e pode estar elevada em vacas com fígado gorduroso. Embora existam associações entre AST e subsequente ocorrência de deslocamento de abomaso, o teste é deficiente em sensibilidade e especificidade. Sensibilidade mede a probabilidade de detectar o positivo dentro de uma população positiva e especificidade mede a probabilidade de encontrar um negativo dentro de uma população negativa. Com o objetivo de averiguar a resposta em termos de adaptação ao balanço energético negativo, a determinação de AGNE e BHBA são os dois principais parâmetros a serem monitorados.
A demanda de cálcio é imensa imediatamente após o parto e o monitoramento de cálcio sérico em vacas até uma semana após o parto pode ter utilidade, no entanto, antes ou depois desse período, não faz sentido medir cálcio (Duffield e LeBlanc, 2009).
Haptoglobulina é uma proteína de fase aguda que aumenta em situações de inflamação. No entanto, este indicador inflamatório não é específico e pode indicar distocia, mastite, metrite e deslocamento de abomaso.
Atualmente, existe uma grande base de dados para o uso de AGNE e BHBA como teste em vacas em transição.
Importantes associações entre AGNE e BHBA com saúde e desempenho em vacas no período de transição são:
• Altas concentrações de AGNE (>0,4 mmol/L) nas duas semanas antes do parto são associadas com: o Aumento de 2 a 4 vezes no risco de deslocamento de abomaso para a esquerda (LeBlanc et al., 2005) o Aumento de 1,8 vezes no risco de retenção de placenta (LeBlanc et al. 2004) o Aumento de 2 vezes no risco de descarte antes dos 60 dias de lactação e 1,5 vezes no risco de descarte durante toda a lactação (Duffield et al. 2005) o Perda de 1,2 kg/dia de produção de leite nos primeiros 120 dias de lactação (Carson, 2008)
• Cetose sub-clínica ( BHBA > 1200 – 1400 µmol/L) no início da lactação é associado com: o Aumento de 3 a 8 vezes no risco de deslocamento de abomaso (LeBlanc et al. 2005; Duffield et al. 2009) o Diminuição da probabilidade de prenhez a primeira IA (Walsh et al. 2007) o Diminuição da produção de leite (Duffield et al. 2009) o Aumento da duração e severidade dos casos de mastite
Monitoramento de AGNE e BHBA
Os principais períodos para monitoramento dos níveis de AGNE e BHBA são: última semana antes do parto e nas primeiras duas semanas pós-parto.
Pré-parto
Não é comum vacas desenvolverem cetose subclínica no pré-parto, porque a etiologia da desordem envolve o estímulo homeorrético relacionado com o início da produção de leite. No entanto, as vacas começam a mobilizar reservas energéticas na semana final antes do parto. Isso pode ser mensurado com a dosagem de AGNE no soro ou plasma. Existe o desafio de saber quando o animal realmente vai parir, mas um estudo recente demonstrou que a avaliação de amostras coletadas uma semana antes do parto previsto fornece informações coerentes (LeBlanc et al. 2005).
Pós-parto
Um programa de dosagem de cetonas deve começar após o parto. As primeiras duas semanas pós-parto é o período de maior incidência (Duffield e LeBlanc, 2009). A sugestão é de que o programa de monitoramento de cetose subclínica deva ser concentrado nas primeiras duas semanas de lactação. Em um recente trabalho canadense, demonstrou-se que concentrações elevadas de BHBA na primeira semana pós-parto possuem um impacto maior na saúde e produção de leite de vacas que concentrações elevadas em semanas seguintes (Duffield et al., 2009). Embora níveis elevados de AGNE nas semanas 1 e 2 pós-parto tenham sido associados com um aumento do risco para deslocamento de abomaso, estes animais produziram mais leite (Carson, 2008). Provavelmente, existe também uma variação individual entre vacas em relação à tolerância a concentrações séricas altas de AGNE e BHBA. Portanto, interpretação de amostras individuais de vacas sem levar em consideração outros sinais clínicos pode não ser útil (Duffield e LeBlanc, 2009).
Em relação ao número mínimo de animais para serem coletados, a recomendação é interpretar os dados de pelo menos 12 amostras. Para interpretação de valores de AGNE e BHBA a proporção é importante e não a média.
Em relação ao teste de AGNE, este deve ser usado em amostras coletadas de vacas no pré-parto dentro de uma semana antes do parto. A concentração limite sugerida é de 0,5 unidades/L. Em um trabalho canadense recente, vacas no pré-parto com AGNE acima desse limite tiveram o risco de deslocamento de abomaso 3,5 vezes maior que vacas que tiveram concentração menor que o limite de 0,5 U/L (LeBlanc et al. 2005). A interpretação de amostras de um rebanho é realizada como proporção de vacas acima desse valor limite, apesar de não ser consenso na literatura quanto a meta apropriada para esse parâmetro. Em um estudo com 1060 vacas em vários rebanhos na província de Guelph, Canadá, 30% das vacas estavam acima de 0,5 U/L durante a última semana antes do parto (LeBlanc et al., 2005) Ao contrário do AGNE, a avaliação de BHBA deve ser feita somente no pós-parto (Duffield e LeBlanc, 2009). As primeiras duas semanas são as de maior risco para cetose sub-clínica, definida com concentração sérica igual ou maior que 1400 µmol/L (Duffield, 2000). Uma meta razoável seria ter menos de 2 vacas para cada 10 vacas com valores acima de 1400 µmol/L nas primeiras duas semanas pós-parto.
Tanto AGNE e BHBA podem ser avaliados com plasma ou soro. Ambas as análises podem sofrer a interferência de hemoglobina na amostras, portanto a presença de hemólise vai elevar artificialmente os resultados e deve ser evitada. Tanto o AGNE quanto o BHBA são susceptíveis a mudanças em relação ao horário da alimentação. Amostras para serem comparadas dentro de uma mesma fazenda devem ser coletadas na mesma hora do dia (Duffield e LeBlanc, 2009). As maiores mudanças ocorrem com o AGNE, com valores maiores antes da alimentação, daí a recomendação de amostrar os animais na mesma hora depois da primeira alimentação do dia. Concentrações de AGNE podem apresentar mais elevadas se o soro não for separado dentro de 12-24 h da coleta ou se as amostras não forem resfriadas. Amostras devem ser coletadas de vasos da cauda e não da glândula mamária e de preferência resfriadas, com separação em poucas horas e depois congeladas ou remetidas resfriadas ao laboratório dentro de 1 a 2 dias.
Interpretação dos resultados de AGNE e BHBA
Em um recente estudo envolvendo 55 rebanhos, a prevalência mediana de vacas com alta concentração de AGNE (>= 0,5 mmol/L) foi 25%, com um mínimo de 6,5% e um máximo de 75%. No entanto, quando os rebanhos foram classificados como rebanhos de alto ou baixo risco, utilizando a mediana de 25% como limite, os rebanhos de alto risco tenderam a ter menor produção de leite, menor concentração de proteína no leite e significativamente maior incidência de deslocamento de abomaso (Tabela 1). A sugestão é de que uma meta razoável seria menos de 25% das vacas no pré-parto com concentração igual ou maior que 0,5 mmol/L (Duffield e LeBlanc, 2009). Rebanhos com prevalência maior que esta podem ser classificados como de alto risco, não necessariamente rebanhos problema.
Tabela 1. Parâmetros produtivos e saúde de vacas leiteiras no estrato de rebanho associados a concentrações de AGNE no pré-parto.
Nos mesmo levantamento, a prevalência mediana de altas concentrações de BHBA (>=1400 umol/L) na primeira semana pós-parto foi 15% com o mínimo de 0 e o máximo de 45%. Pesquisadores sugerem 15% para a primeira semana visando a distinção de rebanhos de baixo e alto risco para cetose subclínica.
O monitoramento de parâmetros metabólicos sanguíneos pode ser mais uma importante ferramenta no gerenciamento do manejo do período de transição em fazendas leiteiras. Este deve ser considerado somente como mais uma ferramenta e não como único componente na avaliação do manejo ou identificação de problemas em fazendas leiteiras.
Referências
Carson, M. 2008. The association of selected metabolites in peripartum dairy cattle with health and production. MSc dissertation. University of Guelph.
Duffield, T. F., Lissemore, K, D., McBride, B. W., Leslie, K.E. 2009. Impact of Hyperketonemia in early lactation dairy cows on health and production. J. Dairy Sci. 92:571-580.
Duffield, T. F., LeBlanc. 2009. Interpretation of serum metabolic parameters around the transition period. Proc. Southwest Nutrition and Management Conference. p. 106-114.
Herdt, T. H. 2000. Ruminant adaptation to negative energy balance. Vet. Clin. North Am. Food Anim. Pract. 16:215-230.
LeBlanc, S. J., K.E. Leslie, and T.F. Duffield. 2005. Metabolic Predictors of Displaced Abomasum in Dairy Cattle. J. Dairy Sci. 88: 159-170.
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:: Comentários ::
HÉLIO'S BLOG -
Pesquisador
Eu tenho a
Fazenda Rosa dos Ventos
Que fica Cocalzinho –GO.
Por isso peço -lhe,
permissão para divulgação.
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JOSE VALTEMIS DA SILVA -
Produtor - Gado de Leite
Olha, gosto muito de sua explicações sobre o manejo do gado leiteiro. Gostaria que você me ajudase na minha propriedade,pois estou começando agora com o gado de leite.
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Milton Ghedini Cardoso - 21/07/2009 23:10
Pesquisador
Eu gostaria de saber a opinião do autor sobre a utilização do propileno glicol puro, via oral, durante o perídode transição, no controle dos níveis de AGNE e BHBA.
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Euler Rabelo - 03/08/2009 11:24
Consultor Técnico
Caro Milton,
O uso de propileno glicol ajuda no controle dos níveis de AGNE e BHBA, no entanto tem curta ação no metabolismo do animal. (6-8 horas). Ele não substitui um bom manejo, ou seja, vacas confortáveis no período de transição, comida balanceada e de boa qualidade sempre disponível, espaço de cocho (min. 75 cm/vaca) sempre disponível e atenção a esses animais para pegar os problemas no início. Essa medidas possuem um impacto durante as 24 horas do dia e não podem ser substituídas por dosagens de propileno glicol.
Abraço,
Euler.
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Equipe ReHAgro - 03/08/2009 11:29
Consultor Técnico
Prezado Jose Valtemis,
Agradecemos pelo seu comentário. Você está no caminho certo ao procurar orientações técnicas ao iniciar suas atividades na pecuária leiteira. A consultoria de um veterinário é essencial no planejamento e manutenção de uma fazenda produtora de leite, possibilitando o alcance do sucesso na atividade. Para saber mais sobre a consultoria do ReHAgro, entre em contato conosco pelo tel (31) 3343-3800 ou pelo email rehagro@rehagro.com.br. deixando seus dados para que possamos retornar.
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