Período de adaptação em confinamento - A adaptação dos animais às dietas com alto concentrado vem sendo estudada intensamente para que os animais se adaptem com menor espaço de tempo possível e para que as complicações digestivas sejam minimizadas. Leia!
Artigos Técnicos
Publicado em 20/07/2009 por Gustavo Cangussu, graduando em medicina veterinária, estagiário - Equipe ReHAgro


Período de Adaptação em Confinamento

 A base de qualquer sistema de produção de bovinos começa pela eficiente exploração das pastagens. Do nascimento até a terminação, a dieta predominante é a forragem, sendo esta responsável por grande parte do ganho de peso obtido até o abate. A terminação de bovinos no Brasil é quase que exclusivamente a pasto, sendo que cerca de 95% dos animais destinados ao abate anualmente são terminados desta forma. Entretanto, a engorda intensiva pode promover ganhos importantes pela redução da idade ao abate, em qualidade de carcaça e no manejo da pastagem, principalmente na estação seca do ano.

                                Fonte: http://www.richardsoncattlecompany.com/angusbeef/148_4835.JPG

O número de animais confinados cresceu rapidamente nos últimos 10 anos, fruto de fatores conjunturais externos e internos e do perfil empreendedor do segmento produtivo. De um setor pouco representativo, que trabalhava de maneira praticamente artesanal, surgiu uma verdadeira “indústria” de produção de carne, promovendo ganhos em escala e qualidade. HADDAD (2007) destaca que a evolução da tecnologia do confinamento no Brasil é a junção da evolução tecnológica das áreas de nutrição, sanidade, ambiência e genética, aliada à natural evolução da agricultura, agroindústria e comercialização.

No Brasil, tradicionalmente utilizavam-se dietas com maior teor de alimentos volumosos, com inclusão de 40 a 60 % na matéria seca (MS) total da dieta. BÜRGI(1996) definiu que rações convencionais fornecidas em confinamentos no Brasil eram aquelas que continham entre 50 e 80% de alimentos volumosos na MS. Entretanto, com a evolução dos confinamentos brasileiros, a produção e estocagem de alimentos volumosos, como comentado anteriormente, se tornou um dos maiores entraves para as médias e grandes operações de engorda confinada. Soma-se a isto, a maior necessidade de área para plantio, o aumento dos custos de produção na última década dos volumosos comumente utilizados (silagens de milho e sorgo) e o risco agronômico inerente à atividade. Como alternativa, a utilização de dietas com maior proporção de alimentos concentrados (70 a 90% da matéria seca total da dieta) pode trazer benefícios sobre o desempenho, custos de produção e operacionalização do confinamento.

Como pontos positivos de dietas com maior utilização de concentrado, destacam-se: maior eficiência alimentar; maior ganho de peso e consequente redução de dias de cocho; menor custo operacional (transporte de ração mais densa e com menos água); melhor acabamento (pelo maior teor de energia da dieta) e maior rendimento de carcaça. A utilização de dietas de alto concentrado é uma prática comum no sistema norte americano de produção de bovinos (LEME et al., 2003). Segundo PRESTON (1998), essa prática caracteriza-se por rápido ganho de peso, alta eficiência alimentar e consequente redução no tempo para terminação e abate, menor custo de mão de obra e maior uniformidade do produto final.

Adaptação
 
A adaptação dos animais às dietas com alto concentrado vem sendo estudada intensamente para que os animais se adaptem com menor espaço de tempo possível e para que as complicações digestivas sejam minimizadas.
 
A transferência dos animais da pastagem para o confinamento modifica alguns aspectos de ambiente e sociais de peso na resposta orgânica do animal. Entre esses, podemos destacar a superpopulação, a água, que antes era consumida em cursos d’água e grandes bebedouros, agora é consumida de bebedouros menores, e a forma de obter o alimento, que antes era do pasto e agora deve ser do cocho. Outra mudança importante é quanto à característica do alimento, onde ocorre a mudança da forragem para o concentrado.

 Na pastagem, a exposição a doenças era pequena e agora é alta, mostrando uma nova realidade e nesse caso, destacamos: a pior qualidade do ar, as piores condições sanitárias, o aumento do barulho, a presença de lama, de esterco, e a dominância social.

Ao chegarem ao confinamento, normalmente os animais estão cansados e com fome, em maior ou menor proporção, dependendo da distância da viagem a que foram submetidos. É comum a ocorrência de leves diarréias nos primeiros dias, devido ao estresse de viagem e o constante estado de alerta devido ao novo ambiente.

Brown et al. (2006) sumarizaram dados provenientes de diversos estudos envolvendo a adaptação de animais confinados. Dados desses experimentos mostraram que problemas foram observados quando o período de adaptação foi inferior a 14 dias até que os animais começassem a receber a ração definitiva de 92 a 95% de concentrado. Brown, et al. (2006) ressaltam, no entanto, que o número de animais totalizados nesses estudos não permitiu uma análise precisa da frequência de distúrbios metabólicos (por ex., timpanismo, morte súbita) que ocorrem em confinamentos comerciais.

Dados de Brown et al. (2006) também mostram que o desempenho foi prejudicado em experimentos onde os animais tinham acesso à vontade às dietas de adaptação. Logo, eles sugerem que um manejo adequado do cocho seja implantado no processo de adaptação. Dados de Pritchard & Bruns (2003) também sugerem que práticas de manejo de cocho adequadas podem reduzir tais problemas de consumo. Pritchard & Bruns (2003) descrevem que um manejo adequado do cocho permite consistência na quantidade de alimento oferecida, sem "superalimentação" dos animais.

Se o animal é alimentado à vontade, poderá comer em excesso, o que causará uma redução no pH ruminal. Quando o pH ruminal é baixo, o consumo é diminuído. A diminuição no consumo, possivelmente, funciona como um mecanismo interno que tenta limitar a fermentação excessiva, o que consequentemente restaura o pH para níveis "confortáveis".

Estão descritas abaixo algumas dietas de adaptação que vem sendo utilizadas no Brasil e nos E.U.A ,demonstrando as suas vantagens e desvantagens com relação aos riscos de problemas digestivos e a praticidade ou não das formulações e utilização das mesmas.

Animais confinados devem receber diferentes dietas, com diferentes proporções de volumoso e concentrado (níveis crescentes de concentrado), que são distribuídas em um período de 3 a 4 semanas antes do início da dieta definitiva. Normalmente, são utilizadas 2 a 4 dietas de adaptação, sendo que cada uma delas é fornecida por 5 a 10 dias. A transição de dietas deve ser feitas de forma gradual, e pode durar de 1 a 3 dias.

 
A adaptação de animais por meio da restrição severa de uma única ração, com aumento lento e progressivo na quantidade, é outra metodologia muito discutida devido às facilidades de manejo que a mesma traz. No entanto, em grandes confinamentos esse tipo de adaptação pode ser problemático. A quantidade inicial a ser oferecida é muito pequena e a variação de animais dentre os lotes, tanto em termos de tamanho como em termos comportamentais (dominância), faz com que alguns animais possam ingerir quantidade excessiva de ração. Esse método é utilizado em confinamentos pequenos e em algumas instituições de pesquisa.


Recentemente, tem-se observado que um novo método de adaptação tem sido utilizado com frequência por grandes confinamentos corporativos nos EUA. Trata-se do processo de adaptação com a mistura de apenas duas dietas (uma dieta de adaptação e a dieta final) por um período de aproximadamente três semanas. A dieta de adaptação é misturada à dieta definitiva em diferentes proporções até que somente a dieta final seja oferecida.

Dessa forma, apenas duas dietas são produzidas pela fábrica de ração durante todo o período de adaptação, o que acaba com a necessidade de se misturar várias rações diferentes para diferentes lotes em adaptação (ração 1, ração 2, ração3, ração 4 etc.). Esse método ainda não foi estudado profundamente, mas parece promissor, pelas vantagens oferecidas em termos operacionais, tanto pela facilidade no gerenciamento da fábrica de ração, quanto pela facilidade no fornecimento.

Referências bibliográficas:

Anais do II Simpósio Internacional de Nutrição de Ruminantes

Brown, M. S., C. H. Ponce and R. Pulikanti. Adaptation of beef cattle to high-concentrate diets: Performance and ruminal metabolism. 2006. J. Anim. Sci. 2006. 84:E25-E33.

Owens, F. N., D. S. Secrist, W. J. Hill, and D. R. Gill. 1998. Acidosis in cattle: A review. J. Anim. Sci. 76:275-286.

NAGARAJA, T.G. Saúde Ruminal. III Simpósio de Nutrição de Ruminantes - Saúde do Rúmen. In: Anais - First brazilian Ruminant Nutrition Conference - Rumen Health Proceedings, UNESP, Botucatu/SP, 2007.

                     



:: Comentários ::

Magna -
Outros

Muito bom o tema abordado, e ótima discussão. valeu gustavo
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Francisco Ricardo Ferreira - 31/07/2009 11:05
Produtor - Gado de Corte

No semi-confinamento (fornecimento de ração baleceada concentrada a pasto) o estresse é sensivelmente minimizado e a adaptação a alimentação é muito facilitada. Por exemplo, podemos iniciar fornecendo 1 Kg de ração por dia por animal e chegar a 5 ou 6 Kg (dieta final) em 2 ou 3 semans.
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Diego da Rocha Caldeira Brant -
Estudante

Gostei muito do artigo,porém acho que poderia ter mais números referentes a confinamentos, para que eu possa me integrar sobre o agronegócio e pesquisar sobre o que obteve melhor resultado com a respectiva dieta utilizada. Mesmo assim achei muito interessante o artigo. Um abraço.
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wilson barboza souza -
Estudante

É um artigo muito bom, mas teria que ser mais específico nas iformações do tema, ou seja, definí-las com mais ênfase
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wilson barboza souza -
Estudante

Gostaria de ler algum comentário sobre gado de leite e corte raças puras e mesticas
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