Adubação da pastagem - Uma visão sistêmica. Os nutrientes necessários às forrageiras são extraídos basicamente do solo, mas no Brasil, cerca de 60% da pecuária está localizada em solos de baixa fertilidade.
Artigos Técnicos
Publicado em 03/08/2009 por Adilson de Paula Almeida Aguiar*, especialista, professor na FAZU e na Uniube; Athila Martins da Silva, zootecnista, engenheiro agrônomo e especialista em Manejo da Pastagem pela FAZU

ADUBAÇÃO DA PASTAGEM – UMA VISÃO SISTÊMICA

* Adilson de Paula Almeida Aguiar
é professor de Pastagens e Plantas Forrageiras 1 dos cursos de Agronomia e Zootecnia da FAZU; de Zootecnia 1 (Bovinocultura de Corte e Leite) do curso de Agronomia da FAZU; de Nutrição Animal e Forragicultura, do curso de Medicina Veterinária da UNIUBE, Uberaba, MG  e é facilitador da disciplina "Intensificação e manejo de pastagens" da Pós-Graduação em pecuária de corte do ReHAgro.

A pastagem deve ser considerada como um ecossistema formado pela interação solo-planta-animal-clima e o homem que a explora. 

Os nutrientes são extraídos basicamente do solo, que é o reservatório natural de nutrientes para as plantas. Mas, os solos sob pastagens no Brasil são reconhecidamente de baixa fertilidade natural, como são os dos Cerrados, onde hoje se explora mais de 60% da pecuária brasileira. Esses solos apresentam pH abaixo de 5,5 quando se busca acima de 6,0; fósforo abaixo de 1 mg/dm3, quando se busca acima de 30 mg/dm3; o K está abaixo de 0,70 mmolc/dm3, quando se deseja acima de 3,0, sendo assim para outras determinações. Então, temos uma situação na qual a planta forrageira precisa extrair nutrientes que não são encontrados nas proporções e quantidades adequadas. Para agravar ainda mais essa situação, quando colocamos o animal no ecossistema, a reciclagem de nutrientes é totalmente alterada.
 
Os nutrientes contidos no solo são absorvidos e assimilados pela planta forrageira, que depois é consumida pelos animais. Do total de nutrientes que foi extraído do solo, entre 10 (produto carne) e 25% (produto leite) são exportados no produto animal e 75 a 90% são excretados. Esta informação sempre levou algumas pessoas a acreditarem que não é necessário adubar, ou então, seria preciso adubar pouco, para manter a sustentabilidade e persistência da pastagem. Mas, isso não ocorre, porque do total de nutrientes excretados, 35 a até 85% podem ser perdidos ao final de um ano, por processos como lixiviação, volatilização, fixação, erosão e nos malhadouros. Essas informações explicam em parte a queda na produtividade das pastagens ao longo dos anos. Pode-se esperar queda em torno de 40% na capacidade de suporte da pastagem entre o primeiro e o segundo ano de uso; e desse para o terceiro ano, a queda esperada na produção é de mais 10% e, no quinto ano, a produtividade já pode ter caído mais de 50%. 

Mais da metade dos ganhos em produtividade da pastagem é seguramente proveniente do manejo da fertilidade do solo e esse é dividido em práticas corretivas e práticas de adubação. Entre as práticas corretivas se faz a calagem para elevar o pH acima de 6,0; a gessagem quando na camada de 20 a 40 cm de profundidade tiver baixos níveis de cálcio e altos níveis de alumínio; a fosfatagem com elevação do fósforo no inicio dos trabalhos para no mínimo 10 mg/dm3, buscando níveis acima de 30 no futuro; o potássio é elevado para 3 a 6% da capacidade de troca de cátions (CTC); o nível de micronutrientes é elevado para pelo menos nível Médio. Normalmente, as práticas corretivas são feitas por ocasião do plantio ou em uma pastagem formada que não estiver recebendo a aplicação de corretivos e fertilizantes. 

Depois das práticas corretivas, adota-se a prática da adubação anual, que pode ser do tipo química ou orgânica ou a associação de ambas. 
             
              



O manejo da fertilidade do solo deve iniciar com um bom programa de amostragem de solo, dividindo a propriedade em áreas homogêneas e amostrando 15 a 20 pontos por cada área homogênea, nas profundidades de 0-20 cm e 20-40 cm. 

Na fase de interpretação dos resultados, observam-se os parâmetros de avaliação da fertilidade do solo, classes de fertilidade e relação de cátions na CTC do solo. Além desses parâmetros, o técnico deve considerar a produção de matéria seca/ha, a composição da planta, as perdas de forragem e a reciclagem de nutrientes. 

Quase sempre é preciso fazer calagem na pastagem, buscando faixa de pH próximo de 6,0. Para se ter uma idéia, nessa faixa de pH, a assimilação dos nutrientes pela planta chega a 94%, enquanto que na faixa de pH 4,5, a assimilação é de 27%. Na pastagem já formada, o calcário e os fertilizantes são todos aplicados a lanço sem incorporação e, nesse sentido, há discussões que já se arrastam por mais de duas décadas. 

Depois de feita a correção do solo, na fase de adubação, serão aplicados de forma parcelada os nutrientes nitrogênio, fósforo, potássio e enxofre, sendo que, para baixa/média produtividade, a aplicação é feita de 1 a 2 aplicações e, em sistemas intensivos, varia de 4 a 7 aplicações sempre após o pastejo. Um fato que chama a atenção é que se usa pouco nitrogênio no Brasil em relação aos outros nutrientes, P e K. Em pastagens nos EUA, a relação é de 2 vezes mais nitrogênio em relação a P e K e, na Inglaterra, é de 5 vezes mais N em relação aos outros dois nutrientes. No Brasil, a relação é de quase duas vezes mais de P e K em relação a N. Esse fato poderia ser explicado pelas recomendações da pesquisa e da extensão de que a dose mais viável de N varia de 40 a 80 kg/ha/ano, negligenciando os resultados de pesquisas desde a década de 60 em regiões tropicais de que há resposta linear à aplicação de N até níveis de 400 a 600 kg/ha em pastagens tropicais. Se a resposta é linear, a produção de MS para cada 1 kg de N aplicado será a mesma para 40 ou 600 kg/ha/ano. Os baixos níveis de adubação nitrogenada podem ser causados pela degradação rápida de pastagens, já que a maioria dos solos nesse ecossistema é pobre em matéria orgânica (2,2% nos solos sob Cerrados) que é a reserva de mais de 98% de todo o N do solo.  No manejo da fertilidade do solo, busca-se a resposta máxima do nutriente aplicado e, no caso da pastagem, essa resposta dependerá de vários fatores que são inerentes mais ao manejo do pastejo em si do que ao manejo da adubação. 

Neste sentido, torna-se importante o manejo dos períodos de descanso e de ocupação, do resíduo pós-pastejo ou da altura de pastejo, da taxa de lotação e da oferta de forragem, da categoria animal, do potencial genético dos animais, do valor nutricional da forragem, do hábito de perfilhamento da espécie forrageira, de forma a transformar o máximo da forragem disponível em produto animal comercializável, tal como leite, carne, bezerros ou lã.

“Quando ocorrem aumentos nos custos de produção, o agricultor precisa CONHECER as maneiras para aumentar a produtividade das culturas. Colheitas rendosas não acontecem por acaso. Ele sabe disso. Elas ocorrem como conseqüência de horas de planejamento e muito trabalho pesado, ano após ano” Alfredo Scheid Lopes (1989).       


:: Comentários ::

Patricia Borges - 03/08/2009 23:12
Produtor - Gado de Corte

Gostei muito, esclareceu muitas dúvidas.
..............................................................................................................................................................
Clovis - 04/08/2009 00:53
Consultor Técnico

Parabens pelo artigo, Estamos precisando de mais informcaoes sobre pastagens, que sao a maioria das forragens usadas tanto em leite como corte.
..............................................................................................................................................................
luiz da matta - 18/08/2009 10:32
Produtor - Gado Corte e Leite

Excelente o artigo, não tanto pela profundidade, mas pelo alerta de que não podemos nos acomodar.Este tipo de artigo serve para acordar muita gente.
..............................................................................................................................................................
Dadiezio Junior - Valença - RJ. 10/12/2009. - 10/12/2009 18:20
Produtor - Gado de Leite

Achei de grande importancia, principalmente para o pequeno produtor, que nunca fez isto.
..............................................................................................................................................................

Escreva aqui o seu comentário sobre o artigo. Ele é muito importante para gerar discussões produtivas sobre o assunto. Contribua!

Comentários
Nome:
Vínculo ao Agronegócio:
Comentário: