O professor da Faculdade de Veterínária da UFMG, Lívio Molina, fala sobre importantes aspectos na busca por um leite de qualidade superior por meio do controle da mastite e do adequado manejo de ordenha. Leia!
Ponto de Vista
Publicado em 14/09/2009 por Lidia Pantuza, graduanda em medicina veterinária, estagiária - Equipe ReHAgro

 

Lívio Molina é médico veterinário pela UFMG; Mestre em reprodução animal pela UFMG com inserção na Texas A & M University - USA e na University of Guelph – Canadá; Doutor em nutrição e alimentação animal pela UFMG com inserção na North Carolina State University - USA. Atualmente, é Professor Associado da Universidade Federal de Minas Gerais das disciplinas de Medicina da Produção e Clínica de Ruminantes e coordenador do Projeto de Extensão UNILEITE.
 

1) Por que se preocupar com a qualidade do leite?

São três pontos importantes a serem considerados:

Primeiro, a importância para o consumidor. Um leite de elevado padrão de qualidade é mais saudável, mais atrativo e mais saboroso. É um produto seguro do ponto de vista alimentar.

O segundo ponto é a importância para a indústria. Um leite de alta qualidade resulta em maior durabilidade do produto e maior rendimento industrial (litro de leite/litro ou Kg do produto), ou seja, se gasta menos litros de leite para produzir a mercadoria final que terá uma vida de prateleira maior.

Sobre o ponto de vista do produtor o principal ponto é a questão financeira. Quando o leite tem sua qualidade comprometida pela elevada ocorrência de mastite no rebanho, há uma perda expressiva de produção em relação ao potencial dos animais, chegando a comprometer de 30 a 40 % da produção de leite. Ainda ocorre o maior descarte do leite devido à ocorrência de resíduo de antibiótico, além de perdas em termos da aceitação pela indústria, levando a um prejuízo no preço final pago pela mesma.


2) Qual a importância do manejo da ordenha para o controle da mastite e qualidade final do leite?

A importância do manejo de ordenha se explica pela existência de dois pontos de risco para o desenvolvimento da mastite que podem ser evitados:

O primeiro é representado por germes que contaminam as proximidades do óstio do teto no intervalo entre as ordenhas. Num ambiente precário de ordenha, quando o esfíncter se abre para a descida do leite, aumenta-se o risco de uma contaminação externa infectar a parte interna da glândula mamária, resultando em mastite. Então, os cuidados de higiene na pré-ordenha são importantes para o controle desses microorganismos.

O outro ponto é representado por germes denominados contagiosos. São assim chamados por serem potencialmente transmitidos de animal para animal durante as ordenhas pelas mãos dos ordenhadores contaminadas e pelos equipamentos que são potenciais veiculadores.

3) Quanto custa um bom manejo de ordenha?

Num adequado manejo usa-se sanitizantes, detergentes e o tempo gasto pela mão de obra. Estes representam um custo, que é, em muito, superado pelos benefícios trazidos por um manejo adequado.

Sem estes cuidados não se produz leite de forma viável sob o ponto de vista econômico.
Em um leite que vai ser destinado ao consumo humano não há como, e não se devem negligenciar estes cuidados higiênico-sanitários. O ponto de partida é entender que um produto destinado ao consumo humano precisa ter critérios de segurança alimentar e garantia para quem o consome.

Então, enumerando desde a origem, estes cuidados são: na pré-ordenha; durante a ordenha com os equipamentos de ordenha e com as práticas de higiene; e na pós ordenha. Não podemos deixar de citar também os cuidados com a ambiência, conforto e saúde animal como um todo, evitando a presença no rebanho de microorganismos e doenças potencialmente transmitidas pelo leite.

4) Como o equipamento de ordenha, quando mal utilizado, pode afetar os índices de mastite e, consequentemente, a qualidade do leite?

Existem dois pontos fundamentais quanto aos sistemas de ordenhas que interferem nas taxas de mastite.

O primeiro é o dimensionamento, que deve ser adequado para aquele rebanho, e aí tem todo um protocolo: dimensionamento do equipamento gerador de vácuo; dos coletores; tubulações; curvas de tubulação; e teteiras.

Outro ponto é a manutenção adequada do equipamento, seguindo protocolos indicados, uma vez que o equipamento é uma máquina e suas peças sofrem desgaste, de forma que essas precisam ser substituídas periodicamente porque, caso contrário, se tornam potenciais transmissores de microorganismos causadores de mastite.
Descrevendo a manutenção com maior riqueza de detalhes podemos citar a troca de óleo das bombas de vácuo, a troca de mangueiras e teteiras de borracha, a revisão dos pulsadores, enfim, todas as ações necessárias para manter as condições adequadas de funcionamento.
É importante também ressaltar a importância das condições de conforto na sala de ordenha para que as vacas produzam leite de alta qualidade.
 


5) Podemos considerar a mastite como maior vilã da pecuária leiteira?

80% dos antibióticos utilizados em pecuária leiteira no mundo são destinados ao tratamento ou controle da mastite.

O uso indiscriminado de antibióticos pode gerar resistência das bactérias a estes como também pode gerar resistência das bactérias do trato digestivo das pessoas que ingerem o leite com alto resíduo de antibiótico.
 
Além do gasto com o antibiótico, utilizado para controle e tratamento, a mastite também está associada à perda expressivas na produção de leite como um todo. Essas perdas são muito representativas e pouco visíveis, porque quando são causadas por mastite do tipo subclínica, o produtor tem problema, o rebanho dele tem alto número de contaminação e se não for feito um acompanhamento criterioso ele não percebe o tamanho do problema e amarga um prejuízo que às vezes ele não conhece a magnitude.

Então, sem sombra de dúvida, mastite é um grande comprometedor do resultado financeiro da atividade leiteira.

6) Como deve se realizado o tratamento da mastite durante a lactação e quais as estratégias de segregação e descarte dos animais?

A primeira coisa é a escolha adequada do antibiótico. Em alguns tipos de mastite o tratamento resulta em menos de 15% de taxa de cura bacteriológica, ou seja, resulta na eliminação da infecção, sendo que em alguns casos a taxa de cura é igual à zero, como por exemplo, as mastites causadas por leveduras, micoplasma ou pseudomonas. Por outro lado, mastites por Streptococcus agalactiae quando adequadamente tratada pode resultar em taxas de cura acima de 90%.

A primeira ponderação é estabelecer qual o principal microorganismo é o causador de mastite naquele rebanho, para isso é fundamental que se conheça o perfil de contaminação do rebanho. Pode haver rebanhos vizinhos, com manejos bastante semelhantes, e até mesmo do mesmo proprietário, mas com perfis de contaminação totalmente distintos e, consequentemente, com indicações de uso de medicamentos e de protocolo de tratamento totalmente distintos. Conhecer este perfil de contaminação só é possível com apoio de um veterinário capacitado para colher amostras e enviá-las de forma técnica e, principalmente, interpretar o resultado e propor o protocolo.

Mas, o controle da mastite não é baseado especificamente no tratamento, considerando as baixas taxas de cura e, principalmente, o alto risco de ocorrência de novas infecções.
Critérios de segregação são determinados, principalmente, pela identificação de vacas portadoras de mastite do tipo crônica. È considerado portador de mastite crônica o animal que repete uma elevada Contagem de Células Somáticas (CCS), acima de um limite de 200.000 - 250.000 células somáticas/ml, por três avaliações intervaladas de 30 dias. Vacas portadoras de mastite crônica devem ser ordenhadas em momento distinto da ordenha do resto do rebanho considerado sadio, evitando disseminar a contaminação.

Outra indicação é o descarte sumário dos animais portadores de mastite do tipo crônica, ou o descarte equacionado com a evolução do rebanho. Em outras palavras, o primeiro passo é identificar as vacas portadoras de mastite crônica, o segundo é colocá-las para serem ordenhadas no final do turno de ordenha, e o terceiro passo é encaminhá-las para o descarte, considerando que a taxa de cura nesse tipo de mastite é praticamente nula. Então, uma vez segregadas, elas não devem mais voltar para o rebanho.

O custo da mastite clínica é a somatória da perda de produção diária em relação ao potencial daquele animal, que varia de 15 a 30%; mais o preço do antibiótico, antiinflamatório, soroterapia, utilizados no tratamento; e, principalmente, a perda com o descarte do leite durante o período de carência do antibiótico (se o tratamento é de 5 dias e o período de carência de 7, podemos perder toda a produção da vaca por 12 dias).

Individualmente, o custo da mastite clínica pode ser maior que o da subclínica. Por outro lado, de maneira geral, para cada caso de mastite clínica tem-se 20-40 casos de subclínica, dependendo do microorganismo predominante no rebanho. Então, a mastite subclínica, do ponto de vista do rebanho, representa um custo muito maior.

7) Erradicar a mastite do rebanho não é uma meta apropriada. No entanto, como deve ser um programa de controle de mastite para que se limite sua prevalência a níveis economicamente aceitáveis? A prevenção da doença custa ou vale?

A erradicação da mastite é uma situação que não se aplica, é impossível considerando-se os riscos inerentes da própria atividade.

No entanto, é possível erradicar alguns microorganismos específicos causadores de mastite. Os países escandinavos formularam um programa com o objetivo de erradicar o Streptococcus agalactiae e obtiveram sucesso nessa iniciativa: menos de 3% das vacas leiteiras desses países são portadores desse microorganismo, por outro lado a mastite ainda ocorre em 30% das vacas leiteiras, na forma clínica ou subclínica, depois de erradicação do microorganismo. Ou seja, há um efeito substitutivo: erradicando-se um microorganismo, potencialmente aumentam-se as chances ou o risco de contaminação por outros agentes.

Na década de 60 um grupo de pesquisadores, extensionistas e produtores se reuniram na Inglaterra e identificaram alguns pontos de risco que tinham grande relevância no controle da mastite e criaram um protocolo chamado “Programa dos 5 pontos”. Esse programa é representado por: imersão de tetos em solução anti-séptica pós-ordenha; tratamento imediato de todos os casos clínicos; tratamento na secagem com antibiótico de longa ação; identificação, segregação e destarte de vacas cronicamente infectadas; e cuidados adequados com a limpeza e manutenção do equipamento de ordenha.

Esse programa resultou na redução, na União Européia, EUA e Canadá, em média, de 50% na Contagem de Células Somáticas nos rebanhos onde ele foi aplicado sistematicamente depois de um ano de trabalho,e de 75% depois do segundo ano, porém nesse programa não se prevê exames bacteriológicos.

Nós aplicamos esse programa no Brasil nos últimos anos através do projeto de extensão chamado UNILEITE e também testemunhamos uma redução na ordem de 50% da CCS no 1º ano de trabalho e uma redução ainda mais expressiva da contagem bacteriana total do leite.
Em um nível de refinamento maior, seria recomendado um estudo de caso específico passando primeiro pelo diagnóstico de situação para identificação dos fatores de risco, dos microorganismos potencialmente causadores de mastite naquele rebanho, o perfil de contaminação, para então proposição de protocolos designados especificamente para aquele rebanho e por fim o monitoramento contínuo em busca da excelência.

A prevenção da doença é mandatória, é a única chance que o produtor de leite tem de se manter no mercado, uma vez que, se considerando a taxa de cura extremamente baixa, a prevenção é a única saída.

8) O registro de ocorrências de mastite pode ser uma ferramenta de gerenciamento da doença, de forma a atuar com a maior rapidez e eficácia? Quais os dados importantes e como eles podem ser úteis?

É preciso salientar mais uma vez a importância em se diferenciar a mastite clínica da subclínica.

A mastite clínica é aquela que se evidencia por anormalidades visíveis no leite e alterações da glândula mamária, que se apresenta inchada, com alteração de coloração, edemaciada e com sensibilidade dolorosa aumentada. Nesse quadro pode haver também o comprometimento do animal de forma sistêmica, levando a perda de apetite, desidratação, quadro toxêmico e eventualmente até a morte.

Então, a primeira coisa é identificar que tipo de manifestação a mastite está expressando naquele rebanho, e se for clínica, determinar qual a intensidade de manifestação. Deve-se também fazer um monitoramento dos casos subclínicos através da avaliação, de modo contínuo, da contagem de células somáticas das vacas individualmente, o que pode ser feito mensalmente por meio da contagem eletrônica de Células Somáticas ou pelo teste CMT.
Esses dados podem nos dar uma visão clara de qual o percentual de vacas afetadas por mastite subclínica em relação ao total do rebanho, bem como nos informar quais são os animais persistentemente infectados, ou seja, as portadoras crônicas. Além disso, pode nos dizer qual o sucesso estamos tendo em termos de taxa de cura dos casos clínicos. Podemos ter também um padrão de monitoramento que nos permita estimar qual é o padrão de qualidade que nós trabalhamos para que possamos reivindicar junto aos compradores o valor justo.

9) Como treinar os funcionários da propriedade para que eles executem o manejo da fazenda com foco na qualidade do leite? E é importante o treinamento de todas as pessoas envolvidas no processo?

Na assistência técnica, o grande desafio é levar a assistência à fazenda acompanhada, porque a técnica é muito convencional, é muito estudada, tem muita fundamentação, mas assistência é respeitar e se fazer respeitado, ouvir e ser ouvido e, principalmente, ter co-responsabilidade. A orientação que eu faço ao produtor é responsabilidade minha e o resultado da implantação dessa orientação deve ter responsabilidade compartilhada entre mim e o produtor. A postura do “eu falo, mas não me envolvo” é muito confortável, mas pouco responsável.

Não é possível ter um processo - entendendo-se como processo algo que se faz repetitivamente - bem conduzido se a pessoa responsável não está apta a realizá-lo porque ninguém ensinou a ela. Se tivermos a oportunidade de estudar um assunto e ampliar nossos conhecimentos sobre ele, a missão da extensão rural é levar este assunto de forma compreensível para as pessoas que executam as atividades relacionadas.

A primeira coisa de um treinamento é entender que o funcionário é uma pessoa e que ela precisa, além de uma remuneração adequada, de muitas outras coisas como, por exemplo, ser valorizado a ponto de se sentir parte integrante do sucesso, ser reconhecido como profissional e como pessoa, ser respeitado, ser ouvido, ter sua experiência considerada. Antes de ter clareza sobre todos esses pontos, é fundamental que haja uma relação respeitosa. Isso porque as pessoas, de uma forma geral, precisam ser respeitadas para que possam depositar sua confiança em alguém.

Em nossas reuniões de trabalho no campo, nós temos o pleno comprometimento e envolvimento com as pessoas que realizam o trabalho, porque não adianta nada eu ter excelência em termos de informações sobre o controle da mastite, se eu não sou o responsável direto pela realização do processo. As informações geradas no ambiente universitário, científico e acadêmico precisam chegar até o chão da fazenda!

Os projetos de extensão rural no Brasil, sejam públicos ou privados, ainda são vistos de forma muito longe daquilo que deveriam representar, em termos de importância, para o desenvolvimento desse país. As universidades, especialmente as públicas têm concentrado a grande maioria dos seus esforços na área de pesquisa, de forma que a extensão tem sido deixada num plano secundário, sendo que a missão das universidades públicas é sustentada em ensino, pesquisa e extensão.


:: Comentários ::

MARCELO COSTA (PC) - 14/09/2009 19:04
Produtor - Gado Corte e Leite

Muito elucidativo, como sempre, o seu artigo. Nunca me esqueci do nosso primeiro contato, quando você me dizia do quanto era difícil incutir no produtor algum tipo de tecnonogia. Penso que hoje já deve ser bem mais fácil, mas, mesmo assim, pelo que ainda vejo por aqui, salvo algumas exceções que você conhece, bem sei que deve-se bater muito ainda em algumas teclas. No ramo de leite vejo produtor receber em torno de R$0.40 (quarenta centavos) por litro de leite por não aceitar regras da Normativa que regula o assunto. Muito oportuno o seu artigo; apenas creio que, mais uma vez muitos nem ligarão para suas orientações e ponderações. Parabéns e um abraço.
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Genesio Gonçalve Silva - 22/09/2009 16:40
Produtor - Gado de Leite

Gostei muito do alerta que o Professor Molina esplanou, agente precisa aproveitar mais a sabedoria dos professores da UFMG, e só assim teremos condições de amenisar os problemas aqui na fazenda, aqui no campo onde vivemos. Um Abraço Genésio G Silva
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Sebastião Marques Amorim - 29/09/2009 12:20
Consultor Técnico

Além dos '5 pontos' temos obtido sucesso considerável com identificação de outras doenças imunorestritivas como a Leptospirose. Com a vacinação dos animais, já na dose 'booster' o índice de CCS cai sensivalmente havendo cura espontânea na maioria dos animais.
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Antônio Flávio - 04/10/2009 13:41
Produtor - Gado de Leite

Muito bom a assunto abordado. Parabéns.
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