Importância do gerenciamento dos custos com reposição de vacas
A reposição de vacas em um rebanho é um assunto de extrema importância dentro dos sistemas de produção de leite, sendo necessária para garantir a manutenção de um rebanho produtivo. Dentro da fazenda, muitas vezes isso ocorre de forma dinâmica e natural – animais são recriados e incorporados ao rebanho ao passo que outros morrem ou são descartados.
A reposição é também muito importante sob o ponto de vista financeiro, como pode ser visto no gráfico 1, onde se observa que ela representa o segundo maior custo dos sistemas de produção de leite, ficando atrás somente da alimentação.
Por isso, o entendimento da metodologia de controle desse item de custo e o bom gerenciamento da reposição podem ser decisivos no resultado da atividade.
O objetivo desse artigo é discutir como controlar e analisar os gastos com a reposição e quais as alternativas e oportunidades para aumentar os lucros por meio de decisões ligadas a essa fatia do negócio.
Gráfico 1 – Composição média do custo do litro de leite em % do custo operacional total. Média de várias fazendas.
Controlando custos
Assim como qualquer negócio que visa lucro, é imprescindível um controle de custos dentro da recria. Isso pode ser realizado de duas maneiras: em conjunto com as vacas ou separadamente. No primeiro, ao trabalhar vacas e recria no mesmo centro de custo (unidade mínima de produção na qual se acumulam os custos ocorridos dentro da mesma, onde são computadas as despesas operacionais, além do capital imobilizado), o número encontrado é chamado de custo da atividade leiteira - considerando que as vacas serão repostas pelo próprio negócio. A vantagem desse método de controle é a simplificação gerada pela não divisão em centros de custo, porém, existem alguns problemas ao se trabalhar as duas categorias dentro de um mesmo centro de custo. Primeiramente, o produtor geralmente não recria o número exato de fêmeas que precisa para reposição – em rebanhos com alta eficiência reprodutiva e baixa taxa de reposição, provavelmente, a recria terá fêmeas excedentes que poderão ser utilizadas para crescimento do rebanho. Esses animais excedentes que são recriados não fazem parte do custo de produção do leite e são na verdade um investimento para o crescimento do negócio. O lucro gerado pela recria desses animais só será percebido se os mesmos forem vendidos ou se o produtor fizer um balanço patrimonial e verificar que seu patrimônio cresceu. O grande ponto que merece destaque aqui é que, normalmente, o produtor não percebe esse resultado, pois o valor dessas fêmeas excedentes que são mantidas no sistema para crescimento do rebanho não vai para o bolso e pode, muitas vezes, passar despercebido ao se fazer uma análise da atividade.
A maioria das fazendas brasileiras recria 100% das fêmeas nascidas e, muitas vezes, o faz sem realizar um controle que permita a análise se a opção de recriar todos esses animais é a melhor em sua realidade e o seu impacto sobre o negócio como um todo.
Outro problema dentro dessa maneira de controlar os custos é a dificuldade de se ter uma visão clara de quanto custa realmente o leite na fazenda, pois existe sempre uma mistura de investimento com reposição do rebanho.
A opção que sugerimos para melhor controle da atividade e que será mais bem esclarecida nesse artigo é a de trabalhar separando os centros de custo. Assim tem-se centro de custo produção de leite e centro de custo recria.
A princípio, já teremos como vantagens a visão mais clara do custo de produção de uma novilha ao parto e do custo de produção do leite sem a recria. O problema é que não se pode produzir leite sem repor as vacas, então o custo de produção de leite sem a recria é subestimado e torna-se necessário ponderar quanto se gastaria para repor esses animais. Dessa forma, para se ter o custo real deve-se inserir o conceito de depreciação de vaca.
Entendendo o que é depreciação de vaca
O cálculo da depreciação de uma vaca é feito da mesma maneira que se deprecia uma máquina. Pode-se entender que, da mesma maneira que se deprecia um trator em alguns anos ou em determinado número de horas trabalhadas, uma vaca tem uma vida útil e ao final desse período deve ser substituída por uma vaca nova. Para o cálculo da depreciação, precisamos de algumas informações sobre o bem a ser depreciado: valor inicial (quanto custa), tempo de utilização (vida útil) e valor na hora de ser descartado (valor residual ou valor de sucata). Sendo assim, temos a seguinte equação:
Depreciação = Valor inicial do bem – valor final do bem
Tempo de utilização ou vida útil
Exemplo: Uma vaca custou R$3.000,00 e foi vendida por R$600,00 após 4 anos de produção:
R$3.000,0 – R$600,00
D =
D = R$ 600,00 por ano
4 anos
Se quisermos saber o custo da depreciação desse animal por litro de leite produzido, precisaremos de mais uma informação: o leite produzido. Vamos admitir que essa vaca tenha produzido uma média de 8.000 lt/leite/ano. Teremos o valor de depreciação abaixo:
D = R$ 600,00 por ano / 8.000 lt por ano = R$ 0,075 por litro de leite produzido.
Nesse caso, o valor de depreciação do animal foi de R$0,075 por litro de leite produzido. Esse cálculo é somente um exemplo com o objetivo de apresentar o raciocínio, os valores são dependentes de sistema de produção. O valor acima não está apresentado como uma referência a ser seguida.
Como gerenciar a reposição?
Isso é simples. Os caminhos para gerenciar a reposição e buscar ganhos econômicos com esse gerenciamento estão na fórmula acima.
Para reduzir o custo de reposição devemos alterar os itens da fórmula para que o valor da depreciação seja o menor possível:
- Diminuir o valor inicial das vacas ou o custo de produção das novilhas
- Aumentar o valor final (valor de descarte das vacas)
- Aumentar o tempo de utilização ou a vida útil das vacas
Vamos agora discutir cada um desses itens:
Estratégia 1 – Diminuir o valor inicial
A redução do valor inicial pode ser pensada em duas diferentes linhas: Redução de custos da recria quando as vacas de reposição são nascidas e recriadas na própria fazenda ou redução o valor das compras quando a reposição é realizada com animais adquiridos de outras propriedades.
Considerando a possibilidade de reduzir o preço de compra, devemos estar atentos para não termos perdas significativas na capacidade produtiva das vacas ao comprarmos animais de pior qualidade. Ao diminuir o valor inicial da vaca, diminui-se o valor da depreciação em reais, porém o que importa no final é o valor da depreciação em reais por litro de leite produzido. Deve-se ficar atento para, ao diminuir o valor inicial do animal, não impactar negativamente na produção de leite, que é fator decisivo no custo da depreciação. Assim, a análise não pode ser feita olhando somente o preço do animal, mas sim a relação preço x capacidade de produção. Devemos analisar especificamente cada caso para a definição da estratégia de cada propriedade.
No caso de fazendas que adquirem animais fora da propriedade, algumas dicas:
• Compre vacas jovens. Assim, você terá tempo de depreciá-las.
• Avalie quanto a fazenda pode pagar nessa vaca pensando em quanto se pode gastar com depreciação dentro do sistema proposto. Para chegar nesse valor, será preciso ter em mãos 3 itens – preço estimado de descarte, tempo de vida útil e produção de leite dessa vaca.
Exemplo:
Estimando uma vaca que vai ser utilizada durante 4 anos produzindo 6.000kg/leite/ano e que vai ser descartada por R$700,00. Se o preço do animal for R$2.500,00 teremos a seguinte equação:
D = R$ 2.500,00 – R$ 700,00 dividido por 4 anos
D = R$ 450,00 por ano
D = R$ 450,00 / 6.000 kg
D = R$ 0,075/ Kg de leite produzido
Se o sistema permitir um gasto de R$0,075/Kg de leite produzido, a vaca está com preço adequado, senão alguma variável tem que ser revista - o preço ou a capacidade produtiva da vaca.
Com esse raciocínio, estamos ilustrando que o produtor deve avaliar quanto pode pagar em uma vaca antes de comprá-la se o seu objetivo for viabilizá-la somente como produtor de leite.
Importante: o valor ideal de gasto com depreciação deve ser pensado em cada sistema de produção. Os números acima são somente um exemplo. O objetivo é simplesmente ressaltar a importância de se avaliar quanto se pode gastar com um animal antes de comprá-lo.
Em fazendas que produzem a própria reposição, pode-se diminuir o custo da recria. Isso pode ser feito de algumas formas e o principal ponto, que merece destaque, é uma boa estratégia alimentar, já que ela representa em torno de 70% do custo da recria.
Outra forma é através de um bom gerenciamento da sanidade, visto que os gastos com medicamentos e a mortalidade dos animais trazem grandes prejuízos ao centro de custo, pois todo o dinheiro gasto com uma bezerra que morre precocemente irá sobrecarregar o custo das demais.
Estratégia 2 – Alterar o valor final e a vida útil dos animais
O descarte de vacas de leite pode ser classificado como voluntário ou involuntário. O involuntário é aquele devido à morte do animal, ou a doenças como mastite, problemas de cascos ou reprodutivos, ou ainda devido a traumatismos ou infertilidade. O descarte voluntário é aquele em que os animais são descartados apenas por seleção, que se baseia na lucratividade do animal, ou seja, baseado em índices, como a baixa produção de leite.
Para alterar o valor final, primeiramente deve-se diminuir a mortalidade de vacas dentro da fazenda, pois se temos animais para vender conseguimos agregar algum valor, ao passo que animais que morrem no sistema têm valor final de R$0,00.
Seguindo esse raciocínio, deve-se também diminuir o descarte involuntário. As vacas de descarte involuntário são vendidas para o corte e por isso têm menor valor de mercado.
Para evitar a morte e o descarte involuntário, é essencial que se conheça as causas para que seja possível gerenciá-las. Vejamos abaixo alguns exemplos:
Tabela 1 – Causas de descarte involuntário e morte em uma fazenda. Média de 4 anos.
Dessa forma, fica o questionamento: Você está gerenciando as causas de morte e descarte da sua fazenda? Para isso, é necessário que haja controle de dados e rotina de analise dos mesmos. A partir da tabela é possível traçar um plano de ação em cada uma das áreas.
A reprodução é geralmente um ponto de grande importância. Na fazenda do exemplo acima, a reprodução é responsável por mais de 40% dos descartes. Vale ainda lembrar que o esforço para melhorar a eficiência reprodutiva, além de reduzir uma importante causa de descarte de vacas, traz diversos outros benefícios, como a redução da média de dias em lactação e consequente aumento da média de produção da fazenda; aumento do número de bezerras nascidas aumentando a oportunidade de que a fazenda tenha bezerras excedentes que poderão ser vendidas ou recriadas; e aumento do percentual de vacas em lactação em relação às vacas secas. O somatório desses benefícios tem enorme potencial econômico, por isso a gestão da eficiência reprodutiva é sempre um item de vital importância nas fazendas de leite, independente do sistema de produção.
Outro ponto que chama atenção na tabela são os problemas relacionados à saúde. No gerenciamento de uma fazenda, devemos conhecer quais são as doenças importantes na realidade específica daquele sistema de produção. No exemplo acima, a pneumonia, as mastites e os problemas de cascos são as mais importantes e com certeza devem merecer a atenção dos gestores e veterinários responsáveis pela fazenda.
Ao trabalhar as causas de descarte e morte existe um duplo benefício. Aumentamos o valor médio dos animais descartados por termos menor número de mortes (valor R$ 0,00) e maior chance de termos vacas de descarte voluntário sendo vendidas por valor maior. Além disso, poderemos ter uma redução na taxa de reposição da fazenda o que significa aumento da vida útil dos animais. Com isso, dividiremos o valor da vaca por um período maior, reduzindo o valor da depreciação por litro de leite produzido.
Depois de termos feito o dever de casa na redução das mortes e descartes involuntários, poderemos ter outra estratégia útil para o aumento do valor residual das vacas: fazer um bom marketing dos animais da fazenda e ter uma boa estratégia de venda para agregar valor aos animais de descarte voluntário.
Temos visto que ao analisar diferentes sistemas de produção através dos custos de produção, muitas vezes o custo alimentar se torna muito parecido mesmo em sistemas muito diferentes. Muitas vezes, temos um custo alimentar por vaca bastante diferente, mas um custo alimentar por litro de leite muito próximo entre sistemas diferentes. Por outro lado, temos visto diferenças significativas nos custos de reposição com a maior ou menor eficiência da gestão e com a utilização de estratégias que agregam valor aos animais vendidos. As estratégias citadas são simples e tem muitos benefícios indiretos no sistema de produção. Temos convicção de que podem alterar significativamente o resultado de uma fazenda de leite.
A seguir temos uma simulação comparando duas fazendas que produzem 1000 litros por dia, com o cálculo da depreciação das vacas utilizando o raciocínio descrito anteriormente. A fazenda 1 tem um custo inicial de R$ 2.500,00 por vaca e um valor final de R$ 480,00 (considerando a média de valor das vacas que morreram e que foram descartadas). Como essa fazenda tem mortalidade e descarte involuntário altos, ela não consegue fazer descartes voluntários. Com isso, o valor de reposição encontrado nessa realidade foi de R$ 0,086 por Kg de leite produzido.
Fazenda 1
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Na fazenda 2 estamos simulando algumas mudanças de resultados a partir do gerenciamento dos itens citados no artigo. O valor inicial das vacas reduziu de R$ 2.500,00 para R$ 2.000,00. Isso pode ser conseqüência de redução do custo de recria ou de uma compra mais eficiente de vacas. A redução da mortalidade e dos descartes involuntários permitiu a venda de 5% de descarte voluntário e a redução da taxa de reposição de 25% para 20%. Com essas mudanças, o custo de reposição caiu para R$ 0,042 por Kg de leite produzido.
Fazenda 2
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Na simulação apresentada temos uma redução de R$ 0,044 no custo de produção de cada litro de leite. Temos acompanhado os custos de produção de leite de diversas fazendas em diversos sistemas de produção e temos visto que quando calculamos adequadamente os custos e trabalhamos com a recria excedente como outro centro de negócio, o lucro das fazendas tem sido na ordem de R$ 0,10 por litro de leite na média de vários anos. Se pensarmos em aumentar o lucro em R$ 0,044 em uma atividade que estava lucrando R$ 0,10, estaríamos aumentando 44% o lucro da fazenda. Isso representaria R$ 16.250,00 por ano na fazenda citada no exemplo.
O que fazer com a recria excedente?
Outro ponto importante a ser discutido é o que fazer com a recria excedente. A primeira coisa que devemos fazer é tratá-la como uma atividade diferente da produção de leite pelas razões já citadas. Visto isso, poderemos analisar se faremos ou não a recria de todas as fêmeas nascidas na fazenda. Importante é que com a análise feita dessa maneira poderemos tomar essas decisões conscientes de que a recria de animais excedentes é uma alternativa, mas que a produção de leite independe dessa decisão.
A recria dos animais excedentes pode ser uma ótima alternativa de negócio e temos visto fazendas que fazem dessa oportunidade um grande diferencial financeiro em seu negócio. No entanto, gostaríamos de alertar para a não generalização dessa estratégia, pois temos viso por outro lado produtores que apertam seu fluxo de caixa para investir em recria de animais excedentes e com isso passam grandes apertos financeiros, muitas vezes recriando animais, que por falta de uma boa estratégia, trarão um lucro que não remunera as oportunidades perdidas pela falta de recurso no caixa.
A estratégia de recriar os animais excedentes será boa quando a fazenda responder às seguintes perguntas:
- Tenho uma taxa de reposição baixa e uma quantidade de fêmeas nascidas na fazenda que permitem que eu, realmente, tenha fêmeas excedentes no sistema de produção?
- O fluxo de caixa permite que eu use parte do lucro do leite para investir em recria de animais excedentes?
- Conheço o custo da novilha ao parto para que possa verificar qual o lucro será obtido ao vender um animal excedente?
- O lucro obtido remunera o custo de oportunidade do dinheiro investido na recria desses animais?
Realmente, acreditamos que a recria de animais excedentes pode ser uma ótima oportunidade de negócio. O que nos preocupa é que temos visto produtores ficando apertados no fluxo de caixa para recriar 100% das fêmeas nascidas porque não responderam as perguntas acima.
Dicas para reflexão sobre sua gestão da reposição de vacas
• Separe os centros de custo produção de leite e recria e, com isso, controle o custo de produção do leite e o custo de uma novilha ao parto.
• Conheça sua taxa de reposição e calcule o custo de depreciação de suas vacas. Ele é, muitas vezes, o segundo maior custo do seu negócio.
• Busque estratégias para reduzir o custo de depreciação.
o Cuide do valor inicial das vacas através do gerenciamento do custo de recria ou de uma boa política de compra de animais.
o Reduza da taxa de reposição através do bom gerenciamento das causas de descartes.
o Agregue valor às vacas descartadas através da redução das mortes e descartes involuntários e de uma bóia estratégia de vendas voluntárias.
• Defina sua estratégia em relação aos animais excedentes tratando isso como uma decisão de negócio. Recriá-las ou vendê-las logo após o parto pode ser a decisão correta dependendo de sua situação e das respostas a algumas perguntas já apresentadas.