Várias são as causas da baixa eficiência na utilização de pastagens no Brasil, mas talvez a principal seja a concepção incorreta que se tem no modo de manejo. Leia: Manejo Racional de Pastagens - desafios de um “novo” sistema de produção.
Artigos Técnicos
Publicado em 30/12/2009 por Alexandre Fonseca - Engenheiro Agrônomo

Sistemas que visam produção de leite e carne a pasto fazem parte da grande maioria dos sistemas de produção no Brasil, onde cerca de 20% de todo território nacional são ocupados por pastagens naturais/cultivadas, sendo que, dos 276 milhões de hectares de terras cultiváveis existentes, 70% são destinadas a esta cultura (Conab, 2009). Apesar do potencial excepcional de exploração, este tipo de sistema, de certa forma, é subutilizado, sendo que na grande maioria dos casos as pastagens estão degradadas e em condições inadequadas de manejo. Os índices produtivos ainda estão muito aquém do potencial de exploração, sendo a média de lotação abaixo de 1 UA /ha/ano (UA:unidade animal= 450kgpv) e produção leiteira em cerca de 360 kg de leite/ha/ano (Corsi, 1990). Esses dados são muito discrepantes quando comparados a algumas propriedades que atingem valores superiores a 14 UA/ha/ano e acima de 25.000 kg de leite/ha/ano, evidenciando a possibilidade e necessidade de explorar de forma mais eficiente e profissional as pastagens.

Várias são as causas da baixa eficiência na utilização de pastagens no Brasil, mas com certeza uma delas, senão a principal, é a concepção incorreta que se tem no modo de manejar o pasto. Primeiramente, é preciso uma mudança por parte de técnicos e produtores em relação à forma de “enxergar” a pastagem, sendo que muitos destes têm uma concepção extrativista e tradicionalista do sistema, com resistência a novas alternativas de manejo. Outro fator que agrava ainda mais esta situação é a falta de planejamento em sistemas de produção a pasto, o que limita a adoção de estratégias de gerenciamento. A falta de conhecimentos teóricos e falta de planejamento comprometem a sustentabilidade e rentabilidade neste sistema de produção, havendo um processo contínuo de descapitalização das propriedades, marcando a ineficiência da pecuária nacional (Lupinacci, 2002).
 
Novos Conceitos

   A princípio, sistemas de pastagens de forma rotacionada preconizavam intervalos fixos de pastejo. Esse conceito muitas vezes limitou o potencial de exploração das pastagens, levando ao insucesso da adoção desse sistema de produção, fazendo com que muitos técnicos e produtores desacreditassem em sua viabilidade. Hoje se sabe que o período de descanso deve ser em função da taxa de acúmulo de matéria seca (MS) dos pastos, sendo necessário manejá-lo entre freqüência de desfolhação e intensidade de pastejo. Isso se deve, principalmente, à sazonalidade de produção das pastagens ao longo das estações do ano, e até mesmo dentro de uma mesma estação, variando de acordo com temperatura média, luminosidade, disponibilidade hídrica e fertilidade do solo. Em estudo feito por Bueno (2003), o período de descanso para o capim Mombaça variou de 24 a 36 dias no verão e 120 a 105 dias no inverno, evidenciando a variação de crescimento da planta forrageira e a necessidade de adequação do manejo ao longo do ano.

Tem sido dada grande ênfase por parte das instituições de pesquisa a estudos envolvendo este tipo de sistema de produção, os quais têm apontado resultados promissores e inovadores no que se referem a novas alternativas de manejo e exploração de pastagens. Estudos recentes propõem que a entrada dos animais no pasto deve ser determinada pela porcentagem de Interceptação Luminosa (IL), o que representa indiretamente, o Índice de Área Foliar (IAF) da pastagem. De forma simplificada, a IL corresponde à porcentagem da luz incidente que é interceptada pelo dossel, a qual pode ser correlacionada com a altura da planta. À medida que a planta se desenvolve, há aumento do IAF e, consequentemente, aumento da IL, havendo maior taxa de sombreamento na fração inferior da planta. De acordo com os resultados obtidos, o ponto ideal de pastejo é quando as plantas apresentam 95% de IL. Neste ponto há uma melhor relação entre produção e valor nutricional da forragem, ou seja, é possível alcançar altas produtividades do capim, aliadas ao melhor desempenho animal (conversão alimentar). Neste contexto, a implantação de um sistema eficiente e sustentável depende de uma interação solo+planta+animal, em que é preciso avaliar a melhor resposta do capim e do animal ao sistema proposto, objetivando colher de forma eficiente a forragem produzida (Bueno, 2003).

Após o ponto adequado de desfolha (95% IL), ocorre um aumento na produção de MS da forragem, proveniente de talos e material morto, componentes que, em grandes proporções, são indesejáveis para alimentação animal e eficiência do pastejo (Balsalobre, 2002). Devido à maior taxa de sombreamento, a planta é estimulada a alongar a haste, no intuito de captar maior quantidade de luz, havendo redução na relação folha/haste.  As folhas presentes na parte inferior paralisam o processo de fotossíntese e entram em senescência, aumentando a fração de material morto na pastagem. Maior proporção de talos e material morto promovem, como principais consequências, aumento na fração de FDN (Fibra em Detergente Neutro) do alimento e maior dificuldade de pastejo. Com o avançar da idade da planta, além de haver maior proporção de FDN, há também redução em sua qualidade nutricional devido à maior lignificação da parede celular, principalmente após o estágio de florescimento. A lignina, que é um dos componentes da FDN, cria uma barreira física à ação dos microorganismos fermentadores no rúmen, reduzindo assim o aproveitamento do alimento pelos animais. A frequência de pastejo é reduzida quando se trabalha com maiores índices de IL, sendo que a maior frequência de pastejo aumenta a produção da pastagem e auxilia no controle do florescimento (Bueno, 2003).
Após a desfolha, a planta utiliza suas reservas presentes no sistema radicular para iniciar o processo de brotação, até que haja IAF que possibilite ter uma taxa fotossintética efetiva e consequente aumento na produção de fotoassimilados e reposição de suas reservas. Quando o pastejo é feito abaixo de 95% de IL, com alta frequência de desfolha, ainda há baixo IAF limitando o acúmulo desses fotoassimilados, ou seja, a planta inicia novamente o processo de brotação sem ter tido tempo suficiente para repor suas reservas, causando um balanço negativo de energia. Quando isto ocorre de forma freqüente, as reservas da planta tendem a se esgotar, levando à degradação da pastagem. Além disso, quando a desfolha é feita com IL abaixo de 95%, há redução na produção de MS por hectare, impossibilitando maximizar a exploração das pastagens.

Tanto quanto gerenciar a altura e estrutura do dossel forrageiro para definir o momento de entrada dos animais, também é essencial o monitoramento da altura do resíduo para determinar o momento adequado de saída. Resíduo acima do recomendado é consequência de uma colheita ineficiente, havendo sobras excessivas de forragem sem que haja aproveitamento pelos animais. Pastagens mantidas com maior altura de resíduo tendem a apresentar maior taxa de florescimento e maior renovação de tecidos na parte inferior da planta, comprometendo a qualidade nutricional da forragem ao longo do ano. Além disso, o controle do processo reprodutivo (florescimento) melhora as condições de brotação das pastagens no início da estação de crescimento (primavera) (Bueno, 2003) e dispensa a necessidade de roçadas frequentes para rebaixar a pastagem.

Superlotação e pastejo excessivo estão entre as principais causas de degradação das pastagens e baixa eficiência do sistema de produção. Pastejo de forma excessiva,  com menor altura de resíduo, limita a possibilidade de seleção durante a alimentação do rebanho, fazendo com que os animais consumam frações da parte inferior da planta com menor valor nutritivo, além de dificultar a apreensão da forragem próxima ao solo reduzindo a eficiência de pastejo (Balsalobre, 2002). O fato de haver menor proporção de folhas quando a altura do resíduo é inferior ao recomendado, faz com que a planta necessite de maior período para brotação, reduzindo a frequência de pastejo. Esse fato também leva a maiores gastos de reserva durante a brotação até haver IAF suficiente para que a planta tenha uma taxa fotossintética efetiva, podendo levar gradativamente à degradação das pastagens. Maiores períodos de brotação também favorecem o surgimento de plantas daninhas, limitando a produção da planta de interesse e comprometendo a qualidade do alimento disponível aos animais.

A fim de aumentar a produtividade, muitos produtores optam pela fertilização das pastagens.  O aumento na produção de MS por hectare não deve ser objetivado de forma isolada, no intuito de maximizar a produção. A fertilização das pastagens é crucial para aumento da produtividade e melhora na composição das plantas forrageiras, mas é necessário que haja um processo de colheita eficiente da forragem. Quando há oferta de forragem além da demanda e da capacidade de colheita, inicia-se o processo de perdas, tanto em termos de capital investido, com gasto desnecessário de fertilizantes, quanto do ponto de vista nutricional (forragem “passada”). Portanto, a recomendação de adubação deve ser feita com base em análises de solo e de acordo com a exigência de cada espécie ou cultivar para alcançar a produção necessária em cada situação.

Vale ressaltar que a maior parcela do custo do litro de leite produzido corresponde ao item alimentação, e dentro deste, o concentrado é responsável por mais de 80%. Sendo assim, a maneira mais eficiente de reduzir o custo do litro de leite produzido é através da obtenção de forragem em quantidade satisfatória e com qualidade nutricional, o que permite reduzir a inclusão de alimentos concentrados na dieta sem comprometer a produção. Lembrando que a composição química da planta varia de acordo com a espécie ou cultivar, fertilidade do solo e combinação adequada entre frequência e intensidade de desfolhação (Bueno, 2003), sendo que este último item não requer desprendimento de capital por parte do produtor, é necessário simplesmente planejamento e gerenciamento da produção.

Considerações

Sistemas de produção na forma de pastejo rotativo apresentam alto grau de complexidade, pois a resposta da planta é inerente a cada propriedade e determinado tipo de manejo. Não é um sistema “engessado”, sendo que há uma flexibilidade que possibilita o uso de determinada planta forrageira a sistemas distintos de manejo, mas respeitando acima de tudo seus limites ecofisiológicos. A introdução a este tipo de sistema de produção deve ser feita de forma planejada e gradativa, iniciando por pequenas áreas para que se aprenda a gerenciar o sistema de forma correta, com conhecimento de técnicas de manejo adequadas e com acompanhamento técnico qualificado. O treinamento de quem maneja a pastagem é de suma importância e deve ser feito de forma contínua.

A escolha da espécie ou cultivar com a qual se irá trabalhar deve levar em consideração aspectos como, perenidade, rebrotação rápida após desfolhação, tolerância à presença animal, valor nutritivo adequado, conforto proporcionado aos animais, adaptação a diferentes tipos de solo, clima e manejo. Em suma, é necessário ter conhecimento das características ecofisiológicas da planta, determinando sua amplitude de utilização e estabelecendo assim a melhor estratégia de manejo. Não existe planta forrageira milagrosa. O que difere uma planta forrageira de outra é a capacidade que se tem de alcançar a melhor relação custo/benefício dentro de cada sistema de produção, o que é conseguido com gerenciamento dinâmico e manejo adequado.

O intuito deste artigo não é ensinar todos os passos para maximizar a produção em pastagens, pois como dito anteriormente, cada propriedade tem suas particularidades; o manejo de pastagens não funciona como se fosse uma “receita de bolo”. O objetivo principal é alertar os leitores a respeito das premissas básicas referentes ao manejo de pastagens e, sobretudo, da necessidade de uma mudança de postura por parte de técnicos e produtores, buscando sempre novas alternativas para sustentabilidade do sistema de produção. Isso só é possível com dedicação e profissionalismo.

Referências bibliográficas

Balsalobre, M. A. A. Valor alimentar do capim Tanzânia irrigado. 2002. 113p. Dissertação (Doutorado) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Piracicaba, SP.

Bueno, A. A. O. Características estruturais do dossel forrageiro, valor nutritivo e produção de forragem de capim mombaça submetidos a regimes de lotação intermitente. 2003. 124p. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Piracicaba, SP.

CORSI, M. Produção e qualidade de forragens tropicais. In: SBZ (ed.) Novas Tecnologias de Produção Animal, Piracicaba: FEALQ, 1990. p. 177-193.

Lupinacci, A. V. Reservas orgânicas, índice de área foliar e produção de forragem em Brachiaria brizantha cv. Marandu submetida a intensidades de pastejo por bovinos de corte. 2002. 160p. Dissertação (Mestrado) – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, Piracicaba, SP.


:: Comentários ::

Rita C. Trzaskos -
Consultor Técnico

Bom dia. Gostei muito do artigo e gostaria de saber onde encontro material sobre grama estrela roxa. Estou tendo problemas para manejá-la e ainda não defini o ponto certo de retirada dos animais. Sempre sobram muitos talos e o reflorescimento ocorre antes dos 28 dias. Obrigada se puder me atender.
..............................................................................................................................................................
Equipe ReHAgro - 04/12/2009 12:00
Consultor Técnico

Prezada Rita, você pode encontrar mais informações sobre a gramínea estrela roxa, ou Cynodon nlemfuensis acessando os seguintes endereços: http://www.agronomia.com.br/conteudo/artigos/artigos_gramineas_tropicais_cynodon.htm ; http://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/BovinoCorte/BovinoCorteAcre/recomtecnicas.htm ; e http://www.google.com.br/url?sa=t&source=web&ct=res&cd=9&ved=0CDQQFjAI&url=http%3A%2F%2Fwww.fag.edu.br%2Ftcc%2F2007%2FAgronomia%2Frendimento_forrageiro_da_grama_estrela_africana_submetida_a_diferentes_niveis_de_adubacao_nitrogenada.pdf&ei=DxQZS7WXLJS1lAfX3JntAg&usg=AFQjCNGqkBzrQSaIFB-qkmeKQHvvVb-hFw&sig2=IdyExUa8_rMU0yTWiXrB9A . Esperamos tê-la ajudado.
..............................................................................................................................................................
MRF -
Consultor Técnico

Gostei muito do artigo. Mas precisamos nos qualificar mais sobre o assunto. Onde poderíamos fazer um curso de boa qualidade sobre manejo de pastagens?
..............................................................................................................................................................
Rivaldo Nunes da Costa - 08/12/2009 14:51
Consultor Técnico

Muito bom. Destaca aspectos fundamentais que devemos conhecer para usufruir ao máximo do Sistema de Produção à Pasto.
..............................................................................................................................................................
FABIANE DO ESPÍRITO SANTO - 12/12/2009 13:55
Estudante

Muito bom..
..............................................................................................................................................................
jose de ribamar borges torres -
Produtor - Gado de Leite

Gostei do artigo, pois é um assunto que venho procurando obter bastantes informações, haja vista, o partejo rotacional ser o foco no momento de todos que trabalham com atividade leiteira. E a variedade mombaça dentre os panicum existente é mais recomenda. Li alguns artigos sobre o programa balde cheio, onde há todo um planejamento da atividade nas unidades produtoras selecionas para implantação do projeto, e tenho observado que o mombaça é o capim mais indicado para o sistema rotacionado. Gostaria de obter mais informações sobre o sistema rotacional capim X mombaça. Pois, estou implantando 20 ha de mombaça, onde preciso fazer o planejamento de piquetes e manejo da pastagem para um plantel de 50 vacas com meta de produção de 1000l/dia, a partir de junho/2010. Ribamar Torres Email: josederibamar-bore@hotmail.com.
..............................................................................................................................................................
EDIMARA SOUZA -
Consultor Técnico

Estou fazendo sobressemeadura (com diversidade de forragens) através de semeadora de plantio direto. Utilizei, por enquanto, SUPERFOSFATO SIMPLES. Pergunta: devo continuar com o superfosfato? E a adubação de manutenção? Qual seria a mais recomendada? Existe algum foliar?
..............................................................................................................................................................
Equipe Rehagro - 09/04/2010 15:50
Consultor Técnico

Caro Edmar, segundo nosso consultor técnico em Agronomia Wagner Tompson, para responder sua dúvida precisa-se de outras informações inerentes ao processo produtivo da fazenda e seu manejo, principalmente a adubação de manutenção. Pode continuar com o superfostato simples, mas o importante é fazer amostragem do solo e atender a demanda de adubação baseado nos dados contidos no resultado da análise do solo. E existem diferentes opções de adubação e manejo.
..............................................................................................................................................................

Escreva aqui o seu comentário sobre o artigo. Ele é muito importante para gerar discussões produtivas sobre o assunto. Contribua!

Comentários
Nome:
Vínculo ao Agronegócio:
Comentário: