Mastite - micronutrientes prevenindo um grande mal. Dentre os fatores relacionados à predisposição à mastite, a nutrição tem um papel importante, que muitas vezes é negligenciado.
Artigos Técnicos
Publicado em 19/02/2010 por Bolivar Nóbrega de Faria, doutor em ciência animal, coordenador da Pós-Graduação em Nutrição de Bovinos leiteiros do ReHAgro e Lidia Pantuza, médica veterinária.

Introdução

Avaliando-se socioeconomicamente, a cadeia agroindustrial de leite mostra-se como uma das mais importantes no cenário brasileiro. Presente em todos os estados da federação, a pecuária de leite emprega mão-de-obra, gera excedentes comercializáveis e garante renda para boa parte da população brasileira. Além de sua importância socioeconômica, o leite é um dos alimentos mais saudáveis e nutritivos utilizados na alimentação humana.

Devido a todos estes fatores, é de extrema importância melhorar não só a produção, mas, também, a qualidade do leite para garantir que o consumidor tenha acesso a produtos lácteos de alta qualidade. Este padrão de qualidade é, normalmente, proposto pelas indústrias do setor lácteo, que em alguns casos promove o pagamento de bonificações às metas alcançadas, elevando a rentabilidade das fazendas leiteiras e possibilitando o acesso ao mercado externo dos produtos lácteos brasileiros.

Dentre os parâmetros analisados pelos laticínios, estão não só os níveis de gordura, proteína e sólidos totais, mas também a contaminação bacteriana e a contagem de células somáticas (CCS) do leite. A qualidade desse produto pode ser gravemente afetada por doenças que acometam a glândula mamária.

A mais frequente causa de queda na produção e qualidade de leite é a mastite, que representa a síndrome patológica mais comum em vacas leiteiras adultas. Essa patologia é causada por uma inflamação das glândulas mamárias e caracteriza-se por alterações físicas, químicas e, geralmente, bacteriológicas do leite, além de alterações patológicas do tecido glandular. A mastite apresenta cerca de 40% de morbidade (quantidade de indivíduos acometidos por determinada doença em relação à população total estudada), sendo que 7% dos bovinos afetados são descartados e 1 % vem a óbito em consequência da afecção (MASSEI, 2008). Esse quadro inflamatório representa grandes perdas econômicas que podem ser devidas à: diminuição da produção de leite (podendo chegar a 10%); custos com tratamento; descarte do leite pela presença de resíduos de antibiótico; descarte precoce de animais; maior necessidade de mão de obra mais especializada.

O quadro de mastite é multifatorial e depende da interação, principalmente, entre três fatores: condições do animal, componentes ambientais e agente etiológico. Dentre os fatores relacionados ao animal podem ser citados a resistência a infecções, estágio da lactação, hereditariedade e idade. A espécie do microorganismo, patogenicidade, infectividade e quantidade do agente etiológico também influem no quadro patológico. Os fatores relacionados ao ambiente podem ser representados pelo tipo de ordenha, manejo, clima e nutrição (PRESTES, 2002).



Dentre os fatores relacionados ao ambiente no desenvolvimento da mastite, a nutrição tem um papel importante, que muitas vezes é negligenciado, apesar de ser mais facilmente corrigida quando comparada a outros fatores, como as instalações, por exemplo. A dieta e a condição nutricional de uma vaca influenciam diretamente na ocorrência, gravidade e duração de quadros de mastites, isso porque determinados nutrientes afetam direta ou indiretamente diferentes mecanismos de defesa, incluindo função leucocitária, transporte de anticorpos e integridade do tecido mamário (PRESTES, 2002).

Micronutrientes na defesa da glândula mámária - Os principais nutrientes comumente citados em pesquisas, nacionais ou internacionais, como importantes fatores na prevalência de mastite em um rebanho são as vitaminas, principalmente a A e E, e alguns microminerais, como o selênio, cobre e zinco.

Segundo o NRC (2001) a suplementação das vacas deve seguir os seguintes parâmetros:

O cobre (Cu) atua nos mecanismos de defesa da glândula mamária, uma vez que é constituinte fundamental de importantes enzimas no desencadeamento de processos inflamatórios. Essas enzimas em que o cobre atua protegem os tecidos contra a oxidação por radicais livres, que são substâncias produzidas para destruir os microorganismos invasores. Na falta de cobre, os radicais livres produzidos pelo organismo passam a destruir não só os microorganismos invasores, mas também o próprio tecido mamário. Esta destruição, em alguns casos, pode ser tão intensa que a ação dos radicais livres pode ser mais destruidora que o próprio microorganismo. Portanto, a deficiência de cobre pode influenciar a magnitude da lesão que ocorre nos tecidos durante os processos inflamatórios, promovendo maiores áreas de perda de tecido mamário, com consequente diminuição na produção de leite e elevação nos custos dos tratamentos.

Outro micromineral considerado importante na prevenção das mastites é o zinco (Zn). Este nutriente é requerido para a atividade biológica de várias enzimas que participam de uma grande variedade de processos metabólicos, não só de defesa, como na quebra dos carboidratos, lipídeos, proteínas e a síntese ou degradação dos ácidos nucléicos. Esse metal também está envolvido com o metabolismo da vitamina A, mantendo as concentrações normais desta no sangue, mobilizando-a do fígado.

Em relação ao sistema imune, a deficiência de zinco afeta nitidamente a morfologia das células envolvidas na resposta imune, a contagem de polimorfonucleares e monócitos (células de defesa do organismo) e a própria resposta geral do sistema imune (DOMINGUES, 2001). Além disso, esse nutriente está envolvido na manutenção da pele do úbere e da camada de queratina presente na extremidade do teto, uma das principais formas de proteção física contra a entrada dos agentes infecciosos da mastite.

Para estimular a defesa do organismo - O selênio (Se) apresenta importante participação no sistema imune, além de conferir proteção contra as espécies reativas de oxigênio e nitrogênio. Esse elemento compõe algumas enzimas que participam do sistema antioxidante, convertendo o peróxido de hidrogênio em compostos menos tóxicos (SOUZA,2009). Além disso, sabe-se que a capacidade dos neutrófilos para matar bactérias fica reduzida em animais com deficiência em selênio. Esses fatores justificam o alto risco de mastite em vacas com nível de selênio abaixo do normal (DOMINGUES, 2001).

O selênio e a vitamina E influenciam na função das células fagocitárias, importantes células de defesa do organismo, funcionando como antioxidantes, ou seja, eliminam os radicais livres formados durante processos de inflamação, os quais podem diminuir a permeabilidade e elasticidade das membranas citoplasmáticas. Dessa forma, deficiências desses elementos podem determinar quadros de mastite, com maior duração e sinais clínicos mais severos.
Além disso, a vitamina E reduz a concentração de corticosteróides no soro sanguíneo, os quais têm fortes propriedades imunodepressivas. É importante ressaltar que forragens ensiladas contêm somente um quinto a um sexto da quantidade de vitamina E quando comparadas às forragens frescas em pleno estágio vegetativo. Dessa forma, muitas das rações usadas para vacas leiteiras contêm quantidades insuficientes de vitamina E.

Estudos verificaram que as infecções mamárias mais severas ocorreram em animais com baixa concentração plasmática de vitamina A. Esse elemento tem influência sobre a manutenção da integridade do epitélio funcional mamário e o envolvimento com a resposta imune celular. A vitamina A influencia também a secreção de queratina, que forma uma barreira física protetora contra a entrada de microorganismos patogênicos (PASCHOAL; ZANETTI, 2004).

O produtor deve atentar não só à escolha da forrageira bem como ao método de conservação desta será utilizado, a fim de garantir um melhor fornecimento dos nutrientes. Além disso, é de fundamental importância o fornecimento de suplementos minerais e vitamínicos de boa qualidade, uma vez que estes são ferramentas práticas para atender as exigências de minerais e vitaminas recomendadas pelo NRC (2001).

Baseado nessas informações percebe-se a importância da escolha de uma dieta que supra as exigências nutricionais do animal, considerando seu estágio de produção, pois pequenos desequilíbrios podem gerar grandes prejuízos seja através da queda direta de produção ou pela maior predisposição a doenças, que acarretam desde menores produções de leite até o descarte ou morte do animal.



Referências Bibliográficas:

DOMINGUES, P.F., LANGONI, H.; PADOVANI, C.R., et al. Determinação de gordura, proteína, cobre, ferro, manganês, zinco e contagem de células somáticas no leite de vacas com mastite subclínica. Ciências Agrárias, Londrina, v. 22, n.2, p. 169-174, jul./dez. 2001.

MASSEI, R. A., SANTOS, W. R. M., INFORZATO, G. R., et al. Mastite – diagnóstico, tratamento e prevenção: Revisão de literatura. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, São Paulo, Ano VI, n 10, jan. 2008.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL, Nutritional Requirements of Dairy Cattle.  Washington D.C. National Academy Press., 2001.

SOUZA, F.N., Blagitz, M.G., Latorre, A. O.  et al. Efeito da suplementação in vitro de selênio sobre a produção intracelular de peróxido de hidrogênio em células polimorfonucleares de bovinos: implicações na resistência à mastite. Ciência Animal Brasileira, 2009. suplemento 1 - VIII Congresso Brasileiro de Buiatria - Anais

PASCHOAL, J.J.; ZANETTI, M.A. Efeito da suplementação de vitamina A sobre a incidência de mastite em vacas da raça Holandesa. Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia, Belo Horizonte,v.56, n.2, abr. 2004.

PRESTES, D.S.; FILAPPI, A.; CECIM, M. Susceptibilidade à mastite: fatores que a influenciam – uma revisão de literatura. Revista da FZVA, Uruguaiana, v. 9, n. 1, p. 118-132, 2002.


:: Comentários ::

Rodrigo Nunes -
Representante Comercial

Boa tarde, sou Representante Comercial da Tortuga Mitsuisal na região de Patrocínio/MG, gostei muito do artigo, mostra bem aos produtores, que precisão fornecer aos seus animais uma suplementação mineral de qualidade com garantia de matéria prima.
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Almir de Souza -
Representante Comercial

Artigo de extrema importância para alertarmos nossos clientes. Precisamos estar atentos a esses detalhes para alertarmos nossos clientes. Artigo de suma importância para alertarmos nossos clientes da qualidade ou não de muitos produtos que estão no mercado. Represento a Bellman Nutrição Animal no centro-oeste mineiro. Parabéns mais uma vez pelas preciosas informações.
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